Permiti-me passar uns dias longe de tudo. Distante, sem computador e fora de contato, exceto por raros telefonemas. Não sou acostumado a isso. Sempre fui multiuso, ocupado, cuidando disso e fazendo aquilo. Na virada do ano resolvi dar folga a mim mesmo, família e amigos. E o que fiz? Li um livro (Doublê de Corpo) com mais de 400 páginas, de Tess Gerritsem, uma médica que resolveu abandonar o estetoscópio para escrever romances policiais intrincados com pinceladas de conhecimento científico. Não precisa ter estudado medicina legal, basta ler sem ninguém por perto. Ao mesmo tempo, viajei e deixei que as alturas me conduzissem entre nuvens, cirros ou nimbo-estratos, de uma banda à outra desse mar-oceano que nos banha. E tive, uma vez mais, a sensação aquietada da grandeza do universo, exceto pelos raros solavancos ao cruzar ilhas que permeiam as muitas novas terras do sul e norte.
Desci, vi parques, estradas, praias e gentes. Gentes, assim mesmo no plural, pois eram de muitas partes e de costumes vários. Umas vozes de acentos sincopados, outras com sons guturais fortes, acres, que não têm nada a ver conosco, livres por natureza e atitudes. Andei a esmo, sem destino, uma espécie de “easy rider” maduro, sem o chapéu do James Dean. E parei para rever um mosteiro sombreado. Velho conhecido que estava de cadeado à porta. Em compensação, fui a uma grande livraria. Dessas que têm um charmoso café onde xícaras, copos, livros, computadores, papéis, dividem as mesas entre jovens e maduros que estão lá esquecidos do mundo e um atendente gay fala com erudição afetada. De lá saí mais pesado, com o olhar raso de avidez pelo conteúdo do que levava. Como todo mortal, fiz compras de impulso, nada compulsivo. E até comprei Dvds remasterizados da série Flash Gordon que vou compartilhar com amigos cinemeiros. E, sem que a Cláudia Leitão e o Auto Filho estivessem por perto, entrei, por mera curiosidade, em duas bibliotecas públicas. Modernas, claras, envidraçadas, limpas, bonitas, frequentadas, informatizadas, onde se tira foto ao chegar. Lá, empanturrei-me de tudo, até de jornais, revistas, brochuras apregoando isso e aquilo ou representando valores, não necessariamente os meus.
E, agora, estou de volta. Dirigindo, olhar atento, paro no sinal. Os vidros fechados recebem toques de dedos magros à espera de um trocadinho. Abro o vidro para a realidade e vejo um assalto logo ali na frente. É isso aí.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/01/2008.

