Recebo, com alegria, um belo convite de formatura em Direito. Parece, à falta de outra palavra, meio performático, primor de design em papel de qualidade, as mensagens de sempre, juramento, fotos dos concludentes na primeira infância e agora quando se formam na profissão mais simples e complexa que alguém pode escolher. Ela é simples, quando usada apenas como meio de dizer: estou formado e fico por aqui. Complexa, se encarada como profissão e missão, pois cobra estudos contínuos no cipoal das doutrinas e jurisprudências amazônicas e só dão azo a quem souber remar livros, pesquisar, ouvir e, naturalmente, ter sensibilidade e capacidade de colocar por escrito as suas ideias com o embasamento teórico que as apoia. E, certamente, souber fazer sustentação oral de suas ideias fundamentadas nos autos.
Mas eu falava de um belo convite muito especial para mim, por conter uma particularidade: a formatura de um amigo na faixa dos sessenta anos. Ele, em meio à vida e à lida, resolveu se entregar a uma de suas paixões: o estudo do direito. Era comum em nossas rodas que ele falasse sobre leis, procurasse interpretá-las, apontasse erros, tivesse a acuidade de ver a essência de tudo o que permeia o vasto mundo real em que os legisladores as fazem e os agentes públicos as aplicam. Um dia, creio eu, tomou a decisão e resolveu se matricular em um curso de Direito. Quem sabe para legitimar o que sabia na prática. E o fez na condição de avô, cabelos brancos e pai de pequenos e adultos, inclusive advogados. Anos se passaram e ele mourejando, cuidando da vida como jornalista, estudando nas horas em que devia e podia, sendo o chefe de família que sempre foi. Agora, do seu jeito direto, entrega-me o convite. Antes de abri-lo, pergunto se será o orador da turma? Sim, diz ele. Não é surpresa, pois é uma pessoa articulada e sabe falar. Sugiro que o discurso seja breve para ser bem ouvido e trocamos amenidades. Ele se vai e vejo as muitas páginas desse gracioso convite, histórico para os formandos, um ‘mix’ de jovens e maduros, todos alegres em suas becas e ciosos de seus feitos. Por senso de justiça, sem que ele o saiba – certamente desautorizaria – divulgo o seu nome como exemplo de determinação: José Édison Silva.
João Soares Neto, escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/01/2008

