EMPRESÁRIO DO IMPÉRIO – Jornal O Estado

Jorge Caldeira, jornalista, sociólogo, cientista político, agora eleito para a Academia Paulista de Letras, utilizou três anos entre a pesquisa e a publicação do livro “Mauá, Empresário do império”, edição da Cia das Letras, em 1995. O resultado das 557 páginas é consagrador.
Por muito tempo na lista dos livros mais vendidos, “Mauá” representa o resgate da figura de um menino pobre do Rio Grande do Sul que chegou ao Rio de Janeiro no ano da independência do Brasil com nove anos de idade. Empregou-se como “caixeiro”; aos 15 já sabia tudo de comércio e aos 30 era um grande empresário, homem à frente de seu tempo e foco de invejas até do Imperador D. Pedro ll, a quem fez, sutilmente, conduzir um carro de mão e utilizar uma pá no lançamento de uma ferrovia.
O trabalho, naquele tempo, era apenas para escravos. lrineu Evangelista de Sousa, o barão de Mauá, desmitificou essa ideia ao contratar técnicos e mão-de-obra na Europa, com visão de mundo que ainda hoje causaria furor. Lançou-se em empreitadas tão dispares como a indústria naval, criação de bancos, estradas de ferro, navegação na Amazônia, empréstimos no Uruguai, iluminação a gás no Rio de Janeiro e, ao final de sua vida, à atividade agropecuária, tendo a coragem de trazer chineses para ajudá-lo nessa tarefa. O livro não é só Mauá. Jorge Caldeira repassa, com uma visão moderna, toda a história brasileira do século XIX, desde a chegada da família real portuguesa enxotada por Napoleão, em 1808, sua estada no Rio de Janeiro, a influência dos traficantes de escravos, a distribuição de empregos públicos para os amigos da Corte e a tutela inglesa em todas as nossas ações. Relata ainda a volta de D.João Vi à Lisboa, as regências, especialmente a do Pe. Diogo Antonio Feijó e sua controvertida figura de filho de padre e de ter tido, tal como seu pai, vários filhos. Destaca a personalidade de D.Pedro I e se detém em D.Pedro II, que nunca teve a dimensão que alguns historiadores lhe conferem nestes duzentos anos da chegada da família real ao Brasil.
“Mauá” é também a história da fundação do Banco do Brasil, das tricas e futricas pela subscrição de suas primeiras ações e do uso, já naquela época, da instituição para beneficiar, a juros baixos, os amigos do Imperador, a quem Caldeira, por descuido ou sutileza, chama de rei em diversas partes de seu livro. Ele deve ser lido por todos os que acreditam no trabalho, na vitória da competência sobre a maledicência, na capacidade de superar obstáculos (faliu e deu a volta por cima) e de aliar tino empresarial a um conhecimento intelectual de fazer inveja, pois lia, em inglês, as obras de Adam Smith, Ricardo, Mill e Bentham. O resgate da figura de “Mauá” por Jorge Caldeira é um presente que se oferece aos jovens e, principalmente aos estudiosos da vida empresarial brasileira do Século XIX. Não basta comprar o livro, melhor que isso é lê-lo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/02/2008.

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