ENVELHECER – Diário do Nordeste

Acabei de ler um livro da escritora inglesa Elizabeth Taylor. Não confundir com a atriz homônima, também inglesa, mas que fez sucesso em Hollywood, Estados Unidos. “Mrs Palfrey no Claremont” é um romance curto sobre a solidão da velhice (“Ela aceitava a idade do modo que ela chegava, e estava chegando depressa”). Retrata com detalhes e humor tipicamente britânico a vida de uma senhora viúva que se recolhe em um hotel em Londres para fugir da solidão dos asilos de velhos. Vejam que trecho bonito e duro: “Envelhecer era um trabalho árduo. Era como ser um bebê ao contrário. Para um bebê, cada dia significa aprender coisas novas. Para os velhos, cada dia significa perder alguma coisa”. Mrs. Palfrey descobre, logo, que os poucos idosos residentes no hotel, têm uma teia de futricas, destacando-se a apresentação de parentes aos demais como forma de demostrar prestígio e fazer crer não estão sós no mundo. Ela tem um neto que mora em Londres que não lhe dá a menor atenção. Um dia, ela leva uma queda na cidade e é socorrida por um jovem, aprendiz de escritor. A esse jovem ela pede que se passe por seu neto. E o faz para não ficar por baixo. Dessa relação meio acidental, meio forçada, surge uma dependência emocional ao suposto neto que, algumas vezes, vive aflições nos contatos com os amigos de Mrs. Palfrey. O que importa e fica da história é a certeza de que as amizades são, algumas vezes, maiores que o parentesco. O que ela apenas pede ao falso neto é um pouco de atenção no vazio de tempo que é a sua vida de aposentada. Em inglês, aposentado é “retired”. Ao pé da letra são os retirados da circulação, do mundo produtivo. Quanto engano. Há muita sabedoria na convivência com idosos, pois passaram pelas alegrias e males da existência com capacidade de contemplação aliada à compaixão, sentimento pouco comum aos jovens, ainda envoltos com a falsa ideia da perenidade da vida. Não há tempo perdido no encontro com os mais velhos. Seus passos ou vozes vacilantes são iluminados pela sabedoria natural de conservar a esperança no próximo. Especialmente se o próximo deles se acercarem com carinho.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/03/2008

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