Hoje é sexta-feira Santa, segundo o calendário da fé cristã. Diz-se que é a data da Paixão de Cristo. Por qual razão tem esse nome? Por que não seria a dia da prova do amor de Cristo? Ou ainda a da sua resignação? O fato é que o nome consagrado e aceito por todos é paixão. Mas, qual o sentido dessa palavra? Como traduzi-la para que todos a vejam sem preconceito ou como mera submissão?
No meu leigo entender, é preciso começar sabendo o que é paixão. A paixão pode ser um sentimento ou uma emoção forte que, em um crescendo, sobrepõe-se ao que se chama de razão. Ela é ainda o contrário da lógica dos homens, pois é um afeto dominador, quase uma espécie de obsessão. No sentido religioso – que é utilizado pelas crenças cristãs- seria o martírio de Cristo, tudo tão intenso, rápido, que transgredia os preceitos judaicos de sua época e objetivava provar a existência de um Deus que determinava o seu destino.
Aquele homem simples, na maturidade dos seus 33 anos, de cujos primeiros trinta anos de vida pouco se sabe e ainda são um mistério para a História, não aceitava a dominação romana que cobria quase todo o mundo de então e acenava com um outro reino, transcendente, cheio de ventura, que fugia aos ditames da lei dos homens e da fé até então vigente. E chegou ao redor do templo da cidade de Jerusalém, como um revolucionário, brigando com os fariseus, reclamando dos vendedores no seu átrio, mas teve a liderança para fazer uma ceia com seus discípulos.
E nessa noite, percebeu ou concluiu que seria traído, mas não recuou e pregou uma nova ordem e o fez com paixão, isto é, acima do que o senso comum permitia. E consta que foi traído por um dos seus. A sua paixão desmedida naquilo que acreditava o tornara um dissidente do judaísmo e logo foi julgado, em rito sumário, e condenado à morte. E teve resignação para aceitar o que acreditava ser um ato de poder contra a fé que vinha pregando ao criar um império dos simples, com outra ordem de valores. E essa sua submissão, parecia uma paixão desmedida, mas poderia apenas ser a obediência ao Pai a quem pediu que perdoasse os seus julgadores, pois “eles não sabem o que fazem”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/03/2008.

