A Ressurreição – Diário do Nordeste

Neste domingo de Páscoa – a data móvel da fé cristã para simbolizar a ressurreição de Cristo, três dias após sua morte – além das poucas ou muitas orações nas igrejas e das comidas e bebidas que são colocadas sobre as mesas dos que muito têm e daqueles que quase nada possuem, é preciso fazer uma reflexão pessoal sobre a nossa visão laica da data. É certo que a maioria de nós não possui embasamento teológico ou religioso para falar sobre os mistérios da cristandade e muito menos da ressurreição de Cristo. O pouco que sabemos, como leigos, é que, simbolicamente, todos nós poderemos ressuscitar, aqui ou no além. Sair de uma ‘morte’ em vida e conseguir uma passagem ou encontro com o que acreditamos ser verdadeiro ou, pelo menos, se ajuste ao conceito comum de amor ao próximo. Não o amor ao próximo estereotipado, coisificado, aparente e ao alcance da vista dos outros, mas o que se pode fazer em silêncio, sem que a vaidade da ação seja maior que o próprio bem produzido.
E há tanta gente simples que tem a capacidade de nos transmitir essa boa vontade, a capacidade de se doar ao outro, a de ver o outro não com os olhos dissimulados da inveja, mas com a compaixão e a afeição que enlevam e nos tornam próximos, sem que seja necessário seguir regras de etiqueta e tampouco trocar palavras amenas aprendidas e não vivenciadas. O amor ao próximo é atitude. É descobrir o que o outro pode precisar sem que ele nos peça e é também disponibilizar o nosso tempo para ouvir o outro, sem a urgência que comanda a vida atribulada de cada um. É, sobretudo, o amor a si próprio, o não compactuar com aquilo que o agride, incomoda ou interfere nas suas referências básicas ou padrões pessoais, sempre sabendo que não somos o centro do mundo, mas temos que ter uma diretriz para a nossa própria vida. A ressurreição pode ser quem sabe, a capacidade de, ainda nesta vida, acreditar no outro e na cura dos seus males físicos ou espirituais. É acolher a capacidade de manter ou fazer ressurgir o amor na família e no próximo, do encontro verdadeiro que gera alegria e paz, generosidade espontânea e a bondade que redundam na confiança que conforta e redime.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/03/2008.

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