A DENGUE É NOSSA – Diário do Nordeste

Bem que eu queria falar de coisa amena, mas há um mosquito zunindo impunemente neste país. Um país que deseja ter assento permanente na direção da ONU, mas não revela que todas as cidades brasileiras possuem esgotos a céu aberto. Um país que gasta bilhões para realizar os jogos Pan Americanos –e a Copa de Futebol vem aí – e não aparelha hospitais, tampouco paga bem a médicos que mal levantam a cabeça para atender clientes em filas imensas. Esse mosquito já havia sido exterminado em 1957, mas voltou e parece que veio para ficar. Ele é como alguns políticos que se elegem e acham que têm direito assegurado eternamente. Ele se originou no século XVIII na Ásia, na Ilha de Java e se espalhou pelo mundo, especialmente nos países em que não há saneamento básico e tampouco as pessoas têm educação sanitária mínima. É uma doença da falta de responsabilidade pública e da desinformação das pessoas. Ela pode acometer a qualquer um de nós, independente de idade, sexo, raça ou renda. Ela é a Dengue (Aedes Aegypti e A. Elbopictus). Atinge mais a crianças e adolescentes, mas já faz estragos e mortes em todas as idades. Esta semana, estive em um hospital de referência e vi crianças com dengue e a preocupação de seus pais e familiares, atônitos a espera do fim do ciclo da doença. Bem que eu queria falar de coisa amena, mas 50 pessoas estão sendo infectadas por hora, apenas no Rio. Imagine o número para todo o Brasil, especialmente no Nordeste, que vive a estação das chuvas e, como se sabe, a água é o habitat do mosquito que completa três séculos e ainda não conseguiu ser banido pela OMS, ministérios da Saúde e as secretarias estaduais e municipais da área dos países subdesenvolvidos da América, África e Ásia. Esse mosquito, no nosso caso, é o atestado maior do descomprometimento coletivo, a partir de um sistema eleitoral que vive, de dois em dois anos, a fazer eleições em que são gastos bilhões – a palavra é bilhões, mesmo – de reais em propaganda, cabos eleitorais, transportes, logística, informática, advogados e aliciamento para gáudio de candidatos e agências de publicidade que deveriam ganhar prêmios na arte do ilusionismo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/04/2008.

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