Convivo com arquitetos e urbanistas há bastante tempo. No começo da vida profissional verifiquei, como hoje se diz, existir um “nicho” na área de planejamento urbano em todo o Nordeste brasileiro. Reuni alguns bons nomes como Marrocos Aragão, Juremir Braga e Jorge Neves e passamos, junto com profissionais de outras áreas, a trabalhar o caos. É claro que as nossas intervenções não tiveram a ousadia de um Napoleão III que modificou no século XIX, com a ajuda de Georges Haussmann, prefeito de Paris por 17 anos, a feição urbana da Cidade Luz. Mas tentamos.
O urbanista, no meu pensar, deve ter uma antevisão do futuro e buscar formas que se ajustem ou se contraponham ao espaço urbano onde intervém. Não estou falando do arquiteto como mero criador de habitações uni ou plurifamiliares, mas enquanto urbanista onde a singeleza de meros traços define o que se pretende no processo de intervenção no tecido da cidade, deixando exposta sua genialidade. Alguém bagagem urbanística, refere que Fortaleza não tem – salvo exceções – nada a preservar. Diz que as intervenções já sofridas não podem ser criticadas por quem não é do métier. Discordo. O urbanismo não é privilégio ou casamata. O urbanismo comporta uma visão multidisciplinar que começa com geógrafos, ecologistas, geólogos, passa por engenheiros, remonta aos historiadores, procura economistas para cálculos de viabilidade, administradores para ajustá-lo à realidade e advogados para transformar as legislações de áreas renovadas. Tudo sendo discutido no fóro próprio, a Câmara de Vereadores.
Fortaleza, até os anos 60, não havia descoberto o mar. A descoberta recente da orla marítima; seu uso indiscriminado com edifícios de alto porte; a proliferação de barracas de toda natureza tal qual uma babel; e o projeto da Praia de lracema exigem ainda um repensar global., a vir com o novo Plano Diretor. Tudo isso tem a ver não somente com intervenções que Fortaleza sofrerá com o Metrofor e o Transfor, mas com o crescimento total no limitado território de 336km2.É preciso encorajar o Município e o Estado a discussões conjuntas mais profundas sobre o que pretendem fazer na cidade. É importante que cada grande intervenção urbana tenha o aval de outros que, por verem de forma diferente, complementam, ajustam, discordam até e, por certo, enriquecem as concepções dos técnicos. Tomemos o caso de Paris. Lá as ZAC (Zone D’Aménagement Concerté) passam por todo um processo de análise histórica, social, financeira e gerencial, até que os urbanistas possam definir as mudanças estruturais de uma zona de recuperação. A ousadia, ponto basilar ou característica nas intervenções urbanas de profundidade, deve ter como contraponto a coerência dos que podem e devem ajudar como profissionais ou cidadãos a definir o futuro das cidades onde moram, tomando-as habitáveis e atraentes.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/04/2008.

