Tive um sonho. Não foi um sonho qualquer. Era estranho, pois misturava pessoas vivas e já mortas. Mas havia uma singularidade. Todos os personagens, exceto eu, eram urbanistas e paisagistas. Lembro bem que os mortos eram Lúcio Costa e Burle Marx. Dos vivos não consigo lembrar. O fato é que sobrevoávamos a cidade de Fortaleza em dia de sol e céu azul. Lúcio Costa olhava tudo de binóculos. Não era um avião, balão ou dirigível, mas uma espécie de planador ou uma jangada aérea. Uma nave, enfim. E ele observava todo o traçado urbano: da Barra do Ceará à Praia do Futuro, do anel Viário à orla marítima. E perguntava, como se fosse um mantra: onde estão as grandes avenidas? Onde estão as grandes avenidas? E eu apontava para as vias que encontrava e ele balançava a cabeça. Não estou falando de ruas largas, mas de grandes e largas avenidas, dizia. E esboçou com um dedo, no denso ar espacial, um desenho que não tinha a forma de avião, mas a de uma mulher com braços e pernas abertos e cabelos revoltos. E dizia que cada um dos braços e das pernas poderia ser uma grande radial. Imagine a planta da cidade, falava ele. Sobre ela coloque uma grande mulher deitada com os cabelos espalhados como trapiches tocando a orla. Um dos braços estendido em direção à Barra do Ceará e ao Antônio Bezerra e o outro tocando as amplas dunas da Praia do Futuro e Sabiaguaba. As pernas seriam dois eixos enormes. Um, para os lados do Cambeba e Messejana. Outro, para Parangaba e Bom Jardim. E foi então que Burle Marx meteu a sua colher de paisagista: olhem essas lagoas, rios e mangues. Isso tudo poderia ser arrumado, mas estou vendo ocupações e fico triste. Faltam árvores nas praças e ruas. Há pouco verde, reclamava. No silêncio do espaço e quase ao final do passeio a nave sobrevoava a avenida Beira Mar. Os dois olharam um para o outro e disseram: Queremos ir embora daqui. Isso choca. Eu não sabia o que fazer para atender ao pedido deles. Não havia piloto, nem comandos e a brisa batia em nossas faces. Eles me olhavam seriamente e repetiam: queremos ir embora daqui. E Agora. Não sei como, caí da nave. Acordei.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/04/2008.

