O VOO DO AUDIFAX – Jornal O Estado

Se eu fosse crítico literário ou algo parecido, certamente falaria que este novo livro de Audifax Rios completa a trilogia Memória do Encantamento, iniciada com Os Búfalos de Campanário, cresceu com Migalhas para Serpentes e agora forma o vértice desse triângulo literário. Eu diria que ele tem sensibilidade narrativa, concebe e formata a estética da imaginada cidade de Campanário, no interior do nordeste, mas que poderia ser em qualquer país hispânico da América. Constrói alegoricamente um mundo fantástico com personagens que têm identidade forte, sexo, cor, ação desenvolta, vida, quase-mortes, desmortes e morte.
Como não sou crítico literário, digo que o autor de “Voe comigo quando desmorrer”, Audifax Rios, é um escritor especial. Homem maduro, longilíneo, óculos, grisalho, observador nato, com jeito de não estar com pressa. Engano. Mexe com arte desde menino na cidade de Santana do Acaraú, onde nasceu e da qual garimpa a essência de seus romances. Em 1965 veio ter a Fortaleza, aqui fixou seus lápis e pincéis, constituiu família, trabalhou com nanquim, aquarela líquida, guache, acrílica e se consolidou como artista plástico múltiplo, com um claro viés de pensador, pois fazia peças de publicidade que necessitam de interlocução com o público que almeja conquistar. Além disso, poder-se-ia dizer que seria um pensador-pintor-desenhista ou um desenhista-pintor-pensador.
Acontece que Audifax é mais que isso. Tirou da memória e do detalhe de cada desenho ou pintura que fez e faz a sensibilidade que aplica ao escrever com sutileza, mordacidade e atilamento. Ele foi em busca de uma identidade literária a partir do seu outro eu, colocando-se como ficcionista. O fato é que Audifax produz saber e isso já havia sido demonstrado em outros livros em que cinzela personagens, pinta cenários e cirze o enredo com uma costura que o associa ao realismo fantástico latino, sem perder a brejeirice de narrador com sua endógena nordestinidade.
Audifax tem jeito e pega os olhos do leitor, prende sua atenção com a narrativa e a paisagem de Campanário, sua Macondo, viva, tão detalhada que é. É um trabalho de sua memória, misturado à imaginação crítica e às muitas leituras que cada escritor faz como pesquisa, prazer ou amor ao ofício. E daí passa a construir de forma subjetiva até uma intertextualidade que é múltipla, pois herança de tudo o que ouviu, leu, intuiu e delirou. Fora isso, as personagens de Aparício Sansão e Guadalupe, para ficar nas principais, são construídas com arte e fé de ofício e restarão guardadas nas frestas da memória de quem sabe ler ou procura ler com um mínimo de atenção e capta as nuances sutis da narrativa e seus diálogos.
O livro tem mortes redivivas, ambição, paixão tempestuosa, ironia, sarcasmo que deixarão o leitor alerta para não perder detalhes que são como cascalhos, onde os olhos não podem pisar rapidamente. Ele fica passeando pela música, arte, gestual e sensualidade latinas, especialmente do México, sem esquecer do circo, da pensão de mulheres, da Igreja e do bicho-homem, entre tantas outras reinações deste escritor que consolida um estilo a distingui-lo como referência no campo minado da fantasia, devaneio, alucinação, desditas que precisam de enredo, começo, meio e fim, a sequência lógica dos baixos e altos de todas as vidas e das obras de fôlego. Abra a primeira página. Leia, vale a pena.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/04/2008.

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