Estamos todos vivendo falsas ditaduras: a dos que se dizem politicamente corretos, a dos metidos a ambientalistas sem saber sequer o que é meio ambiente e a dos que resolveram, de uma hora para outra, posar disso ou daquilo quando nunca foram nada além de seus sapatos. Todos somos pressionados ainda pelos laços de ternura que nos cobram tudo e pouco dão, pela dureza do trabalho, dos muitos impostos que pagamos e pela incerteza que nos propicia a falta de segurança pública. Compramos boas fechaduras para as casas, trancamos os carros, colocamos alarmes, levamos pouco dinheiro vivo no bolso e não nos sentimos seguros em lugar nenhum. Um dia desses, em das esquinas da vida, ouvi uma batida forte no vidro do meu carro. Olhei, distraído que estava, abri um pouco vidro e ouvi de um homem feito e maltrapilho: “vai me dar um dinheirinho ou quer que eu assalte”. Dilema facilmente resolvido, mas ficou ressoando aquela fala de revolta, o duro bater de dedos no vidro e o olhar que me fazia sentir culpado apenas por estar ali sentado a guiar o meu carro. De nada valem os impostos que pagamos e o que fazemos em nossas vidas. Em cada esquina somos confrontados com a realidade social gritante que é também fruto de tudo o que plantamos em anos de indiferença, ao eleger gente despreparada e/ou desonesta, não reclamar dos que achacam ou dos que usam e abusam de estratégias para corromper e zombar dos outros. Cada carrinho de geladeira de um catador é como se fosse um esquife de todos nós, não, não estou sendo injusto, acreditem. É preciso que as pessoas também batam às portas das autoridades e digam, depois que baixarem os vidros da indiferença, que está na hora de parar de zombar de nós. É tempo de se enfrentar os que acreditam que podem fazer tudo e ficar por isso mesmo. Basta de tanta submissão, de tanto salamaleque para quem sabemos que fala uma coisa e vive outra. É hora de dizer, de mostrar os erros, inclusive os nossos. É tempo também de desafiar os que se encastelam em cargos e entidades, sem representarem nada, passam a viver como se donatários delas fossem, sem nada a construir de concreto, a não ser plantar notas em colunas de jornais.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/04/2008.

