ÍCARO E A FLAUTA – Diário do Nordeste

No dia 07.06.2007 escrevi “Tristeza e Tributo”, na imprensa local. Eu dizia estar triste e enumerava minhas razões. A primeira era o fato de jovens universitários terem maltratado, no Rio, uma mulher apenas por cismarem ser ela prostituta. Depois, escrevi: “em outro episódio, nada a ver com o primeiro, vi outros jovens estudantes de uma universidade pública, a tentar empanar o brilho da posse de um Reitor legitimamente eleito. Eles tocavam flauta, portavam cartazes, levavam um simulacro de caixão e falavam da democracia amordaçada. Tiveram plena liberdade de transitar, fazer sua ‘performance’ e se retiraram em meio ao silêncio democrático de todos, inclusive, de outros jovens.” Hoje, mais uma vez triste, posso dizer que o fato que retratei, veladamente, aconteceu na Universidade Federal do Ceará na posse do Reitor Ícaro de Souza Moreira. Eu estava lá e testemunhei o comportamento dele. Parou a solenidade, ouviu a marcha fúnebre na flauta tocada e leu todos os impropérios dos cartazes; impediu que a segurança retirasse os estudantes/manifestantes e, pacientemente, aguardou que saíssem, para concluir o evento. O cumprimentei e naquela mesma noite resolvi escrever o artigo citado. Dias depois, ele me escreve bilhete agradecendo e dizendo que teria um diálogo amplo com todos, inclusive os estudantes que o haviam hostilizado. Agora, Ícaro está morto. Foi acometido por mal súbito. O que depreender de todo esse episódio que ora lhes repasso? No meu entender, não tendo a pretensão de ser certo, Ícaro lutou, desde o primeiro dia, para fazer da UFC uma universidade aberta ao diálogo. Sentiu a injustiça e o emaranhado da burocracia, cientista que era. Mente e corpo pagaram preço alto para conviver com tanta luta que começava ao raiar do dia. O exemplo silencioso que ele deixa é prova de que ainda se pode ter esperança na administração pública. Poucos ali são os venais e muitos os que trabalham feito formigas, sem cantar de cigarras. No velório, encontrei um casal de filhos seus ao pé do caixão e lhes disse que Ícaro tinha cumprido a tarefa a que havia se proposto e agora descansava, sem ouvir flauta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/04/2008.

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