CHEGAR JUNTO – Jornal O Estado

Faz uma semana que ando pensativo, mais que o usual. Penso na vida, família, amor, amigos, no sentido da luta pela existência, no descompasso entre o que intuímos, o que fazemos e em como tudo isso é lido e assimilado por nós mesmos e pelo outro. O outro, já disse certa vez, é alguém como nós, de modo reverso. E quando acontece algo de extraordinário, que nos comove e mexe com as nossas estruturas emocionais, ficamos pasmos. Por que isso? Por que aquilo? E o que sofremos, muitas vezes, é por não ver o outro como uma outra versão de nós mesmos, como semelhante que, muitas vezes, precisa de prontas atitudes de nossa parte. Seja um simples gesto, um palpite para mudança de foco ou até uma intromissão benfazeja, desde que no tempo certo. Mas, e o mas é fogo, ficamos, quase sempre, remoendo nossos problemas, como se fossemos o centro do planeta e esquecemos do outro. Daquele cujo olhar, gestual, até desleixo, excesso no comer e no beber ou no tom de voz a denunciar angústias, que não cuidadas, somatizam-se e transformam-se em depressões profundas a pedir atenções que passam além da boa vontade do amigo, parente ou companheiro. É preciso sair do nosso casulo, ter uma atitude ativa e encaminhá-lo a um profissional competente e sério, do ponto de vista ético. Não a meros experimentadores ou “receitadores” de remédios que embotam a razão de quem os toma. O olhar para si próprio é importante, mas nada há que impeça de se ver o outro, senti-lo, adverti-lo ou ajudá-lo. Trata-se de compaixão, sentimento que não é bem explicado e compreendido. Há quase sempre um olhar de urgência no outro que teimamos em não ver ou simplesmente não somos suficientemente atentos às dores alheias. O estar ocupado sempre, a falácia que é a pseudo proximidade pela Internet com e-mails genéricos de orações e correntes bobas. O despreparo para ouvir mais que falar são razões basilares do distanciamento entre as pessoas. Não acredite na euforia das grandes rodas, na alegria coletiva e em aparências. Se você gosta de alguém não o abandone, ligue-se e sofra até o peso de ser incompreendido. Ouça-o, por favor. Sem dúvida, será melhor que chorar pelo que não pode evitar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/05/2008.

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