Imagine alguém com 80 maios enviando, em requintado invólucro, CD com “passagens musicais” encimado por caricatura sua feita pelo artisita Valber em que um riso franco e maroto parece dizer: ‘pois é no dia 05 de maio de 1928 eu nasci para trazer ao mundo responsabilidade integral no trabalho, fidelidade a todos que me cercam, alegria e coesão com amigos e colegas, amor à minha família e um laço indissolúvel com Guanacés, meu berço-terra, antes por cascavéis protegida e, desde sempre, por mim’. E saiu do berço-terra com a garra dos que sabem o que querem e o que fazem. Estudou, mourejou alhures e aquietou-se há décadas, não por ação de gás paralisante, mas energizante a lhe conferir, a cada dia, água pura no singrar e embarcar no átrio da grande nau em que ressurge todas as manhãs como destemido guardião de valores. Por outro lado, nada disso o impede de desnudar a sua face simples com a coragem de ter seus traços faciais caricaturados. Rir de si mesmo pelo dom da vida que Deus lhe deu e compartilha da maturidade/juvenil que o envolve com D. Isolete, filhas, genros, netos, irmãos, sobrinhos, parentes´, companheiros e amigos de confrarias em uma ‘festalmoço’. Nela todos ouvirão e cantarão a Janela da sua Vida, com venezianas abertas aos sopros duradouros dessa tarde que não aceitará o crepúsculo e enfunará velas para o sempre. Ouvirão também outras passagens musicais que adornam, em dimensão paralela ao trabalho, seu repertório/repositório sensível de valores imateriais feitos em toda uma vida com ilhas de prazer em que se misturam, naturalmente, ao inesperado de tempestades, mortais que somos. E todos, familiares, colegas e amigos, meu caro homem de bem José de Arimatéia Santos, que o abraçarão neste sábado falarão com a linguagem da alma, aquela que, até no silêncio e no riso, diz da fraternidade de espírito e poderão, data vênia, dividir com D. Isolete a música que a ela dedicou, plagiando a você próprio ao entoarem de forma canora, uníssona e de mãos virtualmente dadas: “Eu gosto muito de você, eu quero você sempre assim, o nosso amor é um eterno viver. O nosso amor jamais terá fim”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/05/2008.

