Essa minha mania de ler muito acaba me pregando peças. Pois não é que uma simples notícia na revista Veja me levou a uma pesquisa inútil. Ela, de tão boba que é, fez com que risse de mim mesmo pelo tempo que perdi. De qualquer forma, estou passando para vocês, a quem peço, antecipadamente, desculpas. Juro que não sabia quem era Destiny Hope Cyrus, ou Miley Cyrus, uma garota americana que canta, toca guitarra e é atriz. Li na revista Veja. Depois, pesquisei em jornais, internet e outras revistas e constatei que ela só tem mesmo 15 anos e já fatura 17,5 milhões de dólares por temporada, o equivalente a 30 milhões de reais. Seu pai, Billy Ray Cyrus, um cantor de rock que não fez sucesso, parece ter tido inspiração do além ao lhe batizar com o duplo nome Destiny Hope (destino esperança). Ela hoje é o sustento de sua família e tem contrato permanente com os Estúdios Disney e já vendeu 8 milhões de CDs, 3 milhões de DVD, outros milhões de jogos interativos e até de livros. Agora, pasmem vocês, Miley Cyrus, seu nome artístico, terá a biografia publicada e os seus longos e profícuos quinze anos serão esmiuçados por um escritor-fantasma que encantará adolescentes e adultos já cansados dos filmes e livros de Harry Potter. A biografia venderá aos milhares, logo será traduzida em inúmeras línguas e vendida para diversos países. O Brasil será um deles, não tenham dúvidas. Além do contrato com a Disney, onde interpreta -em um seriado- a personagem Hannah Montana no qual contracena com o seu pai, no exato papel de pai, a garota-prodígio faz shows e já arrecadou 65 milhões de dólares com eles. Pais americanos, para apascentarem seus filhos, chegam a pagar até 1.000 dólares por um lugar privilegiado nesses shows. Os Estados Unidos, país dito civilizado, de vez em quando se torna uma paródia da televisão brasileira em que Xuxas, Angélicas e outras entretêm e hipnotizam milhões de pessoas que, em suas cabeças ocas, são consumidoras dessas fantasias, vendo a vida com olhos destorcidos da realidade, acreditando em meninas que viram princesas com o simples tocar de uma vara mágica de fadas ou achando que Chapeuzinho Vermelho encontrará um meio de se safar do Lobo Mau.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/05/2008.

