SENSIBILIDADE – Jornal O Estado

Fui a uma missa de Trigésimo Dia. Era numa igreja católica, certamente. A diferença é que era uma concelebração na noite que ensombrava neste maio calorento e úmido. Havia um padre e um pastor. Cada qual na sua eloquência, interpretando evangelhos complementares sobre a vida e a vida após a vida. As palavras eram soltas, mesmo que pré-pensadas, fugiam da liturgia usual e mostravam garantia de benquerença com a família. O conteúdo e a crença de cada um dos dois não causavam dano ao outro, mas sinergia e coesão. Falavam sobre amor e compaixão, não de forma ritualística, mas humana, quase casual e fácil compreensão laica. Por outro lado, a trilha sonora da cerimônia não havia sido encomendada aleatoriamente. Dignificava o ouvido e os dedos – puxando ou retendo cordas – que criavam acordes de quem havia partido. Dignificava, sobretudo, pelas melodias e o conteúdo simbólico dos versos de cada uma das canções escolhidas com carinho, sensibilidade e atenção. Havia dor, é claro, mas compungida. No ambiente cabiam a sonoridade da música e de seus intérpretes, a partir de uma criança de 10 anos. Essas ressalvas definem claramente a delicadeza dos que, mesmo pesarosos e privados de seu marido, irmão, pai, avô e líder, souberam honrar sua ausência-presença com amor e sutileza, inclusive na seleção de fotos a paginar o livreto de acompanhamento. É nesses momentos que se conhece o nível de educação, discrição e respeito de todos e cada um. Lá do meu canto, acompanhava tudo e sentia o pesar dos que lá estavam por parentesco e amizade. É claro que a maioria era de amigos, até os que não precisavam ir lá à frente apertar mãos e saíram como chegaram: silentes, com respeito e atenção, pois essa missa era, acima de tudo, um ato de fé e esperança. Não era fruto da razão, ultrapassava seus limites, pois segundo Anatole France: “A razão não tem tantas virtudes assim. É preciso, para servir aos homens, rejeitar a razão, como uma bagagem embaraçosa e, elevar-se sobre as asas do entusiasmo. Quem raciocina, não voa”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/05/2008.

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