Estava a virar meninote. Vizinho à casa dos meus pais havia uma criação de marrecos barulhentos. Lá aparecia um sujeito magro, esquisito, idade do meu pai, mas diferente. Dias, de paletó branco e gravata; meses depois, vestido de franciscano e, vezes, quase normal. Era irmão da D. Mirian, a vizinha da esquerda. Procurei saber o que ele fazia. Poeta, foi a resposta. Essa a minha iniciação com JAP. Distante, o quanto pode ser a relação de um menino com um homem estranho. Próxima, por me encantar a forma como se portava, sem ser o que os outros eram. Um dia, tive a ousadia de mostrar-lhe um escrito. Olhou, riu e disse: vá em frente. Décadas se passaram. Agora, em figura de admirador confesso, estou a amealhar palavras para dizer alguma coisa sobre o poeta, ensaísta, ficcionista e teatrólogo, o eterno visitante da casa dos marrecos. Premiado, consagrado, maduro e lúcido como pode ser quem vive além do real, tal novo Quixote de muitas dulcinéias. Não vê moinhos de vento, mas faz, com seus escritos, mudar o vento da mesmice da literatura brasileira, especialmente a que se configurou como a geração pós 45. Eis que, tempos depois, nos tornamos amigos, pois os maduros não têm idade, amealham lembranças e servem-se de benquerenças para o dia a dia, São, ao mesmo tempo, meninos com sonhos de usar baladeiras, jovens a sentir o cheiro de mulher, maduros a lutar pela vida, não como a traçamos. O fato é que passei a fazer parte dos que estavam próximos ao JAP, sem que pedíssemos prefácios, olhadas em manuscritos, ajudinhas literárias, coisas assim. Esse grupo, entre outros, tem gente como Sérgio, Teles e Carlos Augusto. Gente que o incitava a sair de casa, a escrever e a aceitar os loiros que procuravam sua cabeça gris e o seu coração de curumim. E lá estava ele bebericando uma cervejinha, o olhar iluminado ao passar de uma mulher faceira e sabendo estar entre os seus. Agora, JAP, tal como desejava, volta para o lugar marcado, no Estreito. Encantado por Machado de Assis que, mesmo em sua casmurrice, por ironia do calendário, resolveu, enfim, premiá-lo e, paradoxalmente, o fará em duas dimensões. Os poetas não morrem. Viram versos.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/06/2008.

