NAMORAR, VERBO ANTIGO – Jornal O Estado

Não sei se vocês ainda lembram: ontem foi o dia dos namorados. Classicamente, namorar é procurar inspirar amor a alguém. É cortejar, cativar, desejar ardentemente, requestar etc. Ora, em tempos que as pessoas estão perdendo a ilusão e que cortejar é tão antigo, requestar é palavra que não se usa mais, não se pode traduzir, literalmente, o que hoje possa ser namorar. As mulheres ainda românticas acreditam que é um passo inicial de uma relação duradoura que leva ao casamento. Mas, para ser atual, há tantas variações desse verbo da primeira conjugação. Os jovens “ficam”. Os menos jovens tem “casos” e os maduros, os que saíram da primeira conjugação, não a do verbo, procuram entender e definir o nome da relação que os remete para a difícil tentativa de estar, de forma consistente, com outra pessoa. Tenho ido a casamentos na condição de padrinho, isto é, de amigo dos pais dos noivos ou de ‘conselheiro’ de um dos casantes. E ouço com atenção as homilias dos padres que, via de regra, são fracas, pois ditas por quem não viveu o que tenta explicar ou louvar. Pode até ter tido alguma relação, mas foi acidental, escondida. Não conviveu, não teve filhos e, se os teve, não os educou como pai, mas como ‘tio’. Assim, os padres estão fora, por não terem a vivência da história do amor entre um homem e uma mulher. Creio que os pastores e os rabinos têm mais autoridade para dizer o que significa o matrimônio, mas são presos aos seus evangelhos e se perdem também na idealização de uma relação real entre pessoas que, quase nunca, fizeram cursos de relacionamento humano e têm sexos diferentes, daí as visões não complementares sobre as coisas e os sentimentos do mundo. Mas, eu ia falando sobre namoro, palavra que está perdendo o sentido de arte, de descoberta do outro, pois tudo está tão direto e óbvio, a partir das roupas, dos gestuais e das ações de cada um. Com a morte do Artur da Távola, esse grande cronista que a política contaminou, o Brasil perde um dos grandes incentivadores do namoro, pois ele – que gostava também de música clássica- quer soubesse ou não, acreditava no amor tal um conservador ou um dinossauro, como os mais jovens veem os mais velhos. Em tempos de ‘união estável’, de divórcios sem necessidade de juiz, de mulheres que ainda dão o golpe da gravidez e da cobiça pelo que imagina que a outra pessoa possa ser ou ter, há falta de ilusão, enlevo, cortesia e de descoberta e isso vai dando uma versão ainda não bem definida do novo namoro, do novo casamento ou da relação como a arte do encontro e não da mera consumação do desejo. Vinicius e Drummond estão mortos. Chico desencantou-se com a tardia solteirice e Caetano volta ao seio dos meninos do Rio, daí restam os ‘bregas’ a falar obviedades do amor, sem apresentar nada de novo em tempos de Internet, Msn, de fins de semana sem pais e de uma liberdade que ainda não disse a que veio. Namorar não é fugir da solidão. É o encontro do riso, da alegria, mas é, sobretudo, a conjugação de esperanças, o compartilhamento de sonhos, de dores e a parceria na elaboração do rascunho de uma vida em comum que se pretende feliz, mas a escrita definitiva tem muitas versões.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/06/2008.

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