SOBRE ESCREVER – Diário do Nordeste

Algumas pessoas perguntam: como você tem tempo para escrever? Respondo: faço isso de há muito. É sempre uma tentativa de ir aprendendo a escrever ou, como diz Gabriel García Márquez: “para que me queiram(ler)”. Quem escreve deseja ser lido, aliviar-se, falar do que o alegra ou incomoda e também, se possível, interagir com o olhar e o pensar do outro. Gosto de escrever quando estou só, preferencialmente em casa e quando o silêncio só é banido por raros latidos do “Tico” ou o incômodo do telefone. Escrevo o que vem à mente, de memória, do que leio e vivo, mas estou sempre atento àquela frase de Shakespeare: “os loucos guiam os cegos”. Como todos somos cegos, quem escreve não passa de um louco a falar de sonhos, passado, presente, futuro, alegria, tristeza, filhos, família, pobreza, riqueza, desditas, vitórias, espertalhões, verdades e mentiras. Juntar tudo isso, da primeira palavra ao ponto final, é que nos torna diferentes, não especiais. Os que escrevem têm a mania, mesmo que inconsciente, de dizer isso e aquilo sobre a vida, lugares e pessoas. Acresça-se a isso a capacidade inesgotável de nos metermos onde não somos chamados e acreditar que poderemos melhorar o mundo com meras palavras. Desculpem, somos assim mesmo. As injustiças e os desmandos nos amolam, mesmo que sejamos participes ou coniventes. Vivemos a catar histórias e estórias e não descobrimos respostas para questões fundamentais: por que o homem mata outro homem? Os animais, ditos irracionais, só matam quando estão esfaimados. Se estiverem saciados, nada os incomoda, nem a presença do homem. Nós nos incomodamos com tudo e pouco fazemos de objetivo. Todos os dias compramos pão, mas nos esquecemos de dar bom dia a quem nos atende de pé e com um sorriso. Esse sorriso é a esperança vã ou séria a contaminar aos que não têm tempo de dizer olá, obrigado, bom dia, desculpe, fique bem, gosto de você etc. Por outro lado, a educação nos manda não dizer verdades e, sem querer, nos tornamos hipócritas. Não deveríamos ser, mas ter compaixão pelo outro, senti-lo, mesmo sem empatia ou reciprocidade no afeto. Mas eu falava nas razões de escrever e perdi o fio da meada. Isso é escrever.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/06/2008.

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