Imagine uma pequena cidade baiana na margem direita do Rio São Francisco no ano de 1931. Tinha curso o governo provisório de Vargas e Juazeiro, isolada, energia precária, olhava para Petrolina, Pernambuco, na outra margem do rio. Ainda não havia sido feita a ponte que as ligaria, no Governo Dutra. Ali, em 10 de junho de 1931, nos braços de uma parteira, nasceu João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira, menino comum. Aos 14 anos ganha um violão e a vida muda. A cidade fica pequena e se larga aos 18 para Salvador onde conhece Dorival Caymmi. Agitado, dali vai para o Rio, participa da banda ‘Garotos da Lua’, é excluído por desobediência e por não gostar dos ritmos tocados. Conhece, anos depois, Tom Jobim, pianista clássico que tem profunda admiração pelo Jazz e a história de sua vida vira para sempre. Surge, ali entre Copacabana e Ipanema, o seu primeiro disco, ‘Chega de Saudade’, fins dos anos 50. O restante todos conhecem, pois João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlinhos Lyra e alguns mais modificaram a forma de tocar o samba, tornando-o uma mistura de ritmo sincopado da percussão mais simplificada e, paradoxalmente, mais sofisticada. Desde então, João Gilberto é o monstro sagrado da Bossa Nova e suas excentricidades o fazem desejado pelo público que aceita as suas exigências nos poucos shows que dá no Brasil e mundo. Assim, aproveitando o ano em que a Bossa Nova completa 50 anos e o mês em que ele faz 77, deu um show agora na principal sala do Carnegie Hall, em New York, reclamando do ar condicionado – tosse várias vezes – e da posição do microfone. Canta 22 músicas, começando com Doralice, passa por Chega de Saudade, Corcovado, Morena Boca de Ouro, Preconceito, O Pato, Caminhos Cruzados, Wave, Rosa Morena, Este seu olhar, Samba do Avião, Lígia, Desafinado. Ao final, homenageia os gringos com a versão de Braguinha da música de Irving Berlin, ‘God Bless América’ e fecha com Garota de Ipanema. É aplaudido de pé pelas duas mil pessoas que lotavam a sala. Para Sérgio Dávila, da Folha-SP: “João Gilberto desafiou o tempo e o vento em sua primeira apresentação no ano em que a Bossa Nova completa 50 anos”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/06/2008.

