A QUEDA – Jornal O Estado

Estava no parque. Como de costume. Ninguém a notava. Poucos sabiam dela. Só quando vinha a crise é que os olhos da indiferença transformavam-se em piedade. E o medo de contágio fazia brotar o olhar sadio ou sádico dos outros. Tudo era sentido. Os prenúncios, o turbamento da vista, olhos revirando e o agito da convulsão. Agora, sentada ao chão, vendo a sombra da árvore brincar com os seus pés, sentia-se livre. Sabia que não viria o ataque. Era, naquela hora, tão sadia quanto o tronco em que escorava as costas. Respirou fundo e uma folha caiu em seu regaço, como uma mão invisível e sensível entre seus seios de virgem.
Do outro lado do parque passava um homem de bicicleta. Era o Zé, aquele faz tudo que já desentupira a pia da cozinha e assentara o banco no jardim. Ele ia direto à vila de casas de aluguel do pai de Maria. No bagageiro, a bolsa entreaberta mostrava o cabo de uma colher de pedreiro. Zé não viu a pedra que fez a bicicleta derrubá-lo. Ela, rápida, correu. Zé já se recompunha, com um filete de sangue na boca. Maria rasgou a barra da saia e comprimiu o ferimento. Zé, calado, respirava calmo e punha os olhos na filha do patrão. Levantou a bicicleta, juntos os trecos da bolsa e o mais que disse foi: obrigado.
Um dia, o patrão, já viúvo, morreu. Não se atreveu a ir ao enterro, mas ficou do outro lado da rua e viu quando Maria saiu sozinha, chorando. E foi então que correu a notícia: Maria viria morar entre eles. Zé ajudou na mudança: uma velha penteadeira, cadeiras, mesa, máquina de costura, mala, geladeira e o retrato do casamento dos pais. Maria sorriu, agradecida. Zé sorriu amarelo e pintou a casa de rosa, colocou telhas de vidro no teto e viu o sol sobre os mosaicos encardidos que lavou e poliu com esmero. E Maria pegou dos pincéis e pintou uma árvore. E o sorriso amarelo dele fez-se de todas as cores. Um dia, viu Maria desfalecer, tremendo. Ajoelhou-se, colocou sua cabeça ao colo, limpou a espuma de sua boca e a abraçou com carinho, protegendo-a. Os estertores foram parando. Maria dormia e ele sorria. Era a felicidade em seus braços.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/08/2008

Sem categoria