SEMANA DIFERENTE – Jornal O Estado

Esta semana está sendo diferente. A Bolívia vive em estado de guerra civil. O 4º. Maior banco americano quebrou, as bolsas de todo o mundo caem e Lula tem o maior índice de popularidade da República. E é porque agosto era o mês tido como aziago. Estamos em setembro, na véspera da primavera, faltando dois dias para o Dia da Árvore (plante uma, por favor) e ouvindo o tempo marcar hora para as eleições municipais do próximo dia 05 de outubro. Em janeiro, teremos novos ou reeleitos prefeitos, novos ou reeleitos vereadores. Milhares de funcionários públicos estarão lutando para manter ou obter um cargo comissionado, enquanto estranhos a esse quadro querem nele entrar como recompensa ao trabalho que dizem ter feito. Receberam promessas e cobrarão, certamente. Quem perder, vai limpar gavetas, apagar registros em computadores, reclamar da família, amigos, colegas, apoiadores e deixar dívidas que não serão quitadas, pois a desgraça só se completa com o abandono do barco pelos que já acenam para outras naus. Evo Morales, em meio ao confronto, é tido pelos “cambas”, os ricos de Santa Cruz de La Sierra, como um “colla” exótico em seu marxismo-indígena-bolivariano, que prende um governador e é recebido em Santiago do Chile como ‘avis rara’, alguém que, dizem, não sente estar em plena primeira década do século XXI, essa tal pós-modernidade que abomina o passado, especialmente os pensamentos sedimentados e transmitidos no Século XIX por filósofos e pensadores. O Lehmans Bank, do alto dos seus 156 anos de idade, deixa um rastro de destruição, bolsas despencam e há prejuízo de bilhões de dólares no encontro das finanças com a realidade de um mercado sem compromisso com a longevidade de seus pares. Enquanto isso, Lula lê as pesquisas favoráveis e dialoga com o espelho complacente. Vê, com alegria, os dentes refeitos, por ortodontistas, enquanto cofia a barba bem aparada, olha as não-rugas de sua “galega” e pergunta a si mesmo: há alguém mais feliz que eu? O não, não, não, ecoa pelos corredores do Palácio, acordando fantasmas dispostos em fotos na galeria que contempla indicados, impostos e eleitos. O vento encontra a noite desavisada e faz cair ao chão um outdoor da Coca-Cola.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/09/2008.

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