Diz Mauro Villar, co-autor do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, “que a ortografia é uma convenção. As pessoas vão assimilar as mudanças”. Diz também que as crianças não terão dificuldade, pois vão começar a aprender, já da nova forma ortográfica. Estou falando do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado pelo Presidente Lula, no dia 30 de setembro passado, terça-feira. Por esse Acordo, menos de 1% de nossas palavras terão modificações em sua grafia. Machado de Assis, tão celebrado esta semana, foi até citado por Lula: “Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra. E assim se faz um livro, um governo ou uma revolução”. Não entendi bem o encaixe da citação de Lula, mas admito que ele tenha querido dizer que o seu dom da palavra fez o governo atingir os elevados índices de popularidade. Esperemos, enquanto isso, que esse cataclisma, abalando os mercados financeiros do mundo, não cause transtornos maiores ao Brasil. Voltando ao fio da meada, revela o IBGE: oito entre dez crianças, que não sabem ler e escrever, estão na escola. Essa pesquisa, feita agora, mostra que 84,5% das crianças de 8 a 14 anos, que não sabem ler, estão estudando e somam 1,1 milhões de jovens. O Nordeste abriga 746 mil dessas crianças, que não sabem ler. Se não sabem ler, qual a diferença para elas que os ditongos “ei” e “oi” não sejam assinalados com acento gráfico? Qual o sentido de uma professora primária – mal paga – informar que não são assinaladas, com acento gráfico, as paroxítonas cujas vogais tônicas “i”e “u”são precedidas de ditongos crescentes? O Brasil tem outras prioridades, além dessas mudanças linguísticas, que não farão que a língua portuguesa falada aqui se identifique totalmente com as de Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Um dos maiores críticos da reforma ortográfica é o professor de português e consultor linguístico Sérgio Nogueira: “na minha opinião, o Brasil precisa de outras reformas, no Judiciário, na economia e na política, não de uma reforma ortográfica”. Pergunto a você, qual a consequência da palavra consequência não ter mais o trema?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/10/2008.

