Há uma frase bem conhecida de Tom Jobim: “o sucesso no Brasil é ofensa pessoal”. Por que razão parte dos brasileiros não aceita que o outro tenha sucesso? A propósito, o que é sucesso? Garrincha, um dos maiores jogadores de futebol do mundo, foi um sucesso? E o seu alcoolismo? Ninguém é um sucesso pleno, pois a vida parece não completar tudo para ninguém. Há sempre uma busca incessante por algo mais. Sempre falta alguma coisa. Voltando ao eixo, creio que há, em muito brasileiro, um grau elevado de ressentimento. Ressentimento pode ser a palavra certa. Sentimento que ele, o ressentido, imagina seja o sucesso – ou distância – de alguém que queria seu, próximo ou eliminado. Friedrich Nietzche, pensador alemão do fim do século XIX, dizia que “a memória do ressentido é uma digestão que não termina”. E essa digestão que não termina sempre é dirigida contra alguém, algo, lugar ou até, por exemplo, grupo, associação ou partido. Sem que o alvo desse ressentimento tenha ciência, pode ser difamado, observado, marcado, até para uma “vingança”. Lembram do caso do fã que matou John Lennon? Recordam do muçulmano que atacou e atirou no Papa? Pois é, para essas pessoas ressentidas há a necessidade de uma revolta e vingança contra o objeto de seu desejo irresolvido ou desvio mental, como se a sua infelicidade decorresse do erro do outro ou de um grupo, religião, seita. Quem é ressentido, diz a psicanalista Maria Rita Kehl, com base no que estudou em Nietzche, não sabe amar e não quer amar, mas deseja ser amado. E para o ressentido, o outro é sempre mau. Ele é que é o bom. Se dividirmos a palavra ressentir, teremos re-sentir. Notamos que é sentir de novo. É a volta de uma dor não resolvida que se aprofunda até desviar o ressentido do eixo normal da sua própria vida. O ressentido repete, forte e pungentemente, seu desvario, ao invés de procurar a sua própria felicidade, que é a sensação ideal de completude, de levar a vida se arriscando para alcançar o que almeja, buscar amar sem medo da possível perda futura. Já há uma quase felicidade na ação, na procura da realização do desejo e é assim que imagino deva a vida ser tocada.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/10/2008.

