CRIANÇA, HOJE – Diário do Nordeste

Foi semana passada, mas há mais de dez lustros. Eu fui criança, acreditem. Sem essa de psicólogo, analista e que tais. O dr. Mário Mamede passava xaropes, purgantes e Calcigenol irradiado. Chupavam-se rolete de cana, pitomba e manga, tomavam-se refrescos, comiam-se pastel e goiabada. O dever de casa era feito sozinho, sem repetidora, todos dormiam em camas “Patente”, após tomar banho, jantar, rezar e deitar cedo. Após a escola, jogava-se pelada ao sol quente. Havia seriado nos cinemas e os índios sempre perdiam para os cowboys ou se via o Flash Gordon, com Steven Holland. Agora, as crianças têm grilos, seguem dietas, os pais ‘pisam em ovos’ e mesmo que tenham lido o Livro do Bebê, do Dr. Delamare, ou outros mais atuais, há um longo aprendizado – sem escola – que não termina nunca. Pois é, hoje é o Dia da Criança. A criança hoje, mesmo pobre, tem uma televisão em casa, ouve música em som três em um e brinca com jogos eletrônicos em que o objetivo sempre é vencer corridas, acertar objetivos e tentar não perder, nunca. Platão dizia que “os filhos dos homens, dentre todos os animais jovens, são os mais difíceis de serem tratados”. Não são muitos os considerados bons pais, apesar de terem tentado. Deus sabe como, mas há um fosso de tempo físico na linguagem que medeia o relacionamento entre pais e filhos, mesmo que sejam camaradas e pai e mãe pensem na mesma direção, o que não acontece sempre. Ninguém é filho(a) apenas do pai ou da mãe. São duas cabeças diferentes que formam um casal. Se afinarem, ótimo. Há a tal da herança genética, a convivência e a afinidade natural com a mãe, especialmente se as filhas forem mulheres, criando um halo de relacionamento maior. O pai, já disse, é um ser periférico e precisa esquecer o mundo profissional em que vive para ter a família junta e feliz. Acho que estou fugindo do tema a que me propus, pois como bem falou C. Pavese, escritor italiano da primeira metade do século XX: “não é bom ser criança: bom é, quando somos velhos, pensar em quando éramos crianças”. Agora, aproveitem este domingo, juntam as crianças, filhos e netos, lambuzem-se de benquerença.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/10/2008.

Sem categoria