TEMPOS CHINESES – Diário do Nordeste

A crise troava embaixo e eu voava de Dubai a Pequim. Sete horas depois, abria-se o novo aeroporto onde a imensidão da terra de Lao Tsé é transposta para a abóbada gigantesca que afirma, em arquitetura, aço e luzes o poder da nova China, a que emerge das Olimpíadas ao mostrar aos visitantes deste 2008 um país forte, com autoestradas, indústrias, universidades, arranha-céus hi-tec, hotéis, estádios, carros de luxo e um ar de futuro, no presente. Esquadrinhei o que ver, diferente da Ásia que vi em 1991. Olhei até como moradias humildes ficaram atrás de muros. Vi parques, palácios e jardins, lindos. Depois, fui aos arredores admirar as Grandes Muralhas. Metido a viajado, ousei usar o metrô (Bombardier-canadense), novo, limpo como um lençol branco e ir ao Ninho do Pássaro, estádio das cerimônias olímpicas. Mergulhei. Feliz, voltei à superfície e lá estava ele, majestoso em tom gris. Mas havia barreiras metálicas e me rendi à versão chinesa do mototáxi brasileiro. O guiador desse riquixá mecanizado, fica no selim do triciclo e há um banco de costas para dois passageiros. Seus guiadores andam por cima de passeios, cruzam faixas de pedestres e não dão bola para nada. Escapei. Milhares de turistas, quase todos asiáticos, abraçavam o Ninho. Obedeciam a ordens de guias com bandeiras coloridas. Eu me desguiava. Comprei o ingresso e entrei. Toquei a estrutura metálica e vi que tudo funciona nesse lugar onde deram e dão um show de tecnologia e organização. Agora, o lugar é palco diário para milhares de visitantes verem reapresentações e telões. Certamente que fui à Praça da Paz Celestial e à Cidade Proibida, que estava aberta, e o mausoléu de Mao, fechado. Outros tempos estes em que o mercado parece substituir o Livro Vermelho e a China é credora dos Estados Unidos, país que escolhe nesta terça um presidente entre a alvura republicana de McCain, herói de guerra, e a negritude redimida pós-Kennedy de Obama, filho de muçulmano. Vejo o último debate deles de um quarto de hotel neste outono chinês, enquanto meus olhos pairam na tela da CNN invasora – com legendas em Mandarim – e me belisco para sentir que não estou sonhando. Entramos no amanhã?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/11/2008.

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