PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA – Jornal O Estado

Bem que, há tempos, eu desconfiava. Já havia até falado para um amigo letrado e leitor de Saramago sobre este assunto. Agora, realmente, comprovei. A escolha dos agraciados com o Prêmio Nobel de Literatura é uma ação entre amigos suecos e demais europeus. Se não tiver nenhum bom nome europeu, os 18 da comissão podem até fazer uma concessão a autores de outros países. A comprovação é fruto das minhas leituras desataviadas que foram bater os olhos em reportagem de Eduardo Simões e Sylvia Colombo, para a Folha. Vi que Horace Engdalh é o porta-voz e secretário da Academia Sueca, a que concede os prêmios Nobel. Engdalh, ao falar para o jornal sueco Dagens Nyheter, afirmou, sem meias palavras, que “há autores de peso em todas as grandes culturas, mas você não pode descartar o fato de que a Europa ainda está no centro do mundo literário”. Não contente com as besteiras ditas, arrematou: “Os EUA são muito isolados, não traduzem o suficiente e não participam do diálogo de literaturas. Esta ignorância os limita. Eles também não se distanciam da cultura de massa que prevalece no país.” Os gringos ficaram com raiva e a resposta certeira veio do editor David Remnick, da consagrada revista New Yorker. Ele disse: “A análise de Engdalh é banal e presunçosa. A lista de omissões no Nobel é muitas vezes mais contundente do que a dos escolhidos. Já mereciam ter sido premiados Philip Roth, John Updike, Thomas Pynchon, Ian McEwan e Mario Vargas Llosa.” Ficou clara para mim a razão de autores como o brasileiro Jorge Amado, com suas mulatas e narrando a cultura popular da Bahia, e o argentino Jorge Luís Borges, com sua poesia sublime e prosa cortante, terem morrido sem o galardão. Brasil e Argentina têm grandes culturas? Segundo os critérios do tal Engdahl, certamente que não, pois ficamos nos trópicos. Há um viés ideológico declarado e uma proteção aos autores europeus. Abre-se, todavia, uma perspectiva com a morada definitiva de Paulo Coelho na França, tal como o ganhador deste ano, Jean Marie G. Le Clézio. Quem sabe se Engdahl não recebe de presente de Natal um exemplar do Exorcista e se maravilha com a literatura nele contida? Rezemos que sim e esperemos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/11/2008.

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