COISA PÚBLICA – Jornal O Estado

Não sei bem a razão porque insisto em falar neste assunto. Há um entendimento errado de que coisa pública não tem dono. A coisa ou bem público pertence a todos e está sob a guarda de administrações, sejam prefeituras, estados e a União e merecem o olhar atento de cada pessoa. Não sei se é assunto bom para hoje, mas amanhã não será um mero feriado, mas o dia da Proclamação da República, ocorrida no Rio de Janeiro na manhã de 15 de novembro de 1889. Consta que, embora com falta de ar, o Marechal Deodoro da Fonseca saiu de sua casa, forçado por partidários e camaradas. Reuniu a tropa militar que comandava e montado em um cavalo na Praça da Aclamação, disse a frase: “Viva a República.” Desceu do cavalo, voltou para casa e cuidar da dispnéia que o combalia. O império já estava podre e caiu de maduro. Todos torciam contra, até os próximos do Imperador D. Pedro II. Voltemos ao hoje. Em qualquer cidade brasileira há bens e prédios públicos abandonados, sem uso, ensejando saques e invasões. Na maioria das repartições públicas há sinais evidentes de ausência de comando, atendimento ineficaz, mesas e cadeiras vazias, energia elétrica gasta em profusão, amontoados de funcionários em conversas hilariantes tomando cafezinhos e, quase sempre, faixas reivindicatórias por melhores salários e condições de trabalho. Esse retrato tem exceções, é claro. Mas não há um só cidadão brasileiro que não tenha sentido o desleixo como são tratados os bens e coisas públicas. E esses mesmos cidadãos, eu inclusive, são os que elegem os administradores públicos maiores. Os de segundo e terceiros escalões são, quase sempre, frutos de conchavos políticos onde o mérito não é o que mais importa. Então é nossa culpa. Nada de apontar o mesmo dedo que digita números e nomes nas urnas eletrônicas para os políticos que se perpetuam no poder, graças a falta de compromisso social de cada um de nós. O próximo ano estará livre de eleições, mas será, quem sabe, o mais político desta década, pois em arranjos partidários serão conhecidos os candidatos a presidente da República e Vice, governadores de estados e seus vices, senadores, deputados federais e estaduais. Aproveite este fim-de-semana e faça uma reflexão pessoal sobre o seu voto e o seu compromisso como cidadão. A cidadania não é moda, é exercício. É a luta por seus direitos fundamentais, por um estado democrático de direito e a capacidade de se considerar apto a influenciar no destino de seu país, estado ou cidade. No final das contas, como disse J.Stuart Mill, “o valor de um Estado é o valor dos cidadãos que o compõem.” Viva a República.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/11/2008.

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