ELA MUDOU – Diário do Nordeste

Resisti o quanto pude. Ela veio e foi ficando. Não entendia a capacidade que ela tinha de ser múltipla. Zangava-me por saber que ela era o futuro e que deveria me ajustar ao seu charme, aos seus modos sutis, sua linguagem cifrada, sua velocidade, cada dia maior. Tinha que aprender a lidar com ela, o que não era fácil. Não dependia só de mim, mas de terceiros. De princípio, o telefone nos ligava e depois caía. Comecei brincando. Testava e ela fazia. Mudava o jeito e ela se ajustava, como se fosse tão maleável quanto alguém de boas maneiras. Tudo começou no meio da década passada. Precisamente, em 1996. A minha curiosidade era um meio de ir apagando saudades abertas. O jeito foi ir me apegando a ela que, nesse tempo, tinha que ser via Embratel. Primeiro, foi a mera comunicação. Precisava de um canal de comunicação e ela abriu, pouco a pouco, as portas do futuro para mim. A abertura era diretamente proporcional à minha capacidade de ver o novo, entender que o ontem havia passado e que o hoje era só mudança. Depois, paralelo a tudo isso, fui vendo que ela me ajudava com informações. Muitas vezes, a informação era fajuta, boba, superficial, mas ela estava lá, bastava procurá-la e ter paciência, para separar o lixo do que importava. Anos de assimilação. Até que não precisava mais de fios, nada de Embratel, era tudo rápido, cada vez mais, e podia ser em qualquer lugar que estivesse. Fiquei dependente dela e tinha vergonha de dizer isso. Tudo era dentro de quatro paredes. Às vezes no claro, outras até no escuro. Eu e ela. Ela tinha energia própria, singular. Foi então que descobri o óbvio, o que não queria enxergar. Ela não se ligava só em mim, tinha muitos outros, milhares, até que virou milhões e eu caí na real. Agora, que tudo já passou, ainda mantemos relações. Quando a procuro, ela me atende. Pode ser a qualquer hora, em qualquer lugar, nos basta a senha que combinamos. Ainda me surpreende, pois altera a dicção sem prévio aviso e tenho que procurar novos meios de vê-la. E, dessa forma, vamos indo, sem fazer planos para o futuro, pois ela mudou demais nestes nossos anos de relacionamento. Não é mais a mesma. A Net é fogo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/11/2008.

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