Há cerca de quatro meses passei uma hora conversando com Francisco Auto Filho. Mostrava exposições de arte que estava coordenando, costureiras trazidas do interior para fazer bonecas de pano e um anjo de cipó que um artesão fez, a partir de um tronco ressequido de árvore. E ele dava baforadas em seu cachimbo, enquanto se via livros novos na sua sacola plástica aberta.
Pouco tempo depois, fiz o mesmo trajeto, mostrando as mesmas coisas à Cláudia Leitão. Ela dizia das suas andanças pelo interior, ouvindo mestres populares do saber, difundindo visões simples de que a cultura pode abraçar a todos e, igualmente, todos podem caber dentro da cultura. Agora, Cláudia deixa a Secretaria de Cultura do Ceará e Auto Filho a assume. São visões diferentes, mas complementares e instigantes. Cláudia e Auto são professores universitários. Ela é antropóloga., ele é filósofo. Ambos são polêmicos e cientes de que esta terra precisa ser revolvida e resolvida pela cultura. Não sei se já conversaram, mas fariam bem se trocassem ideias, mesmo que para discordar. Há pouca gente de boa cabeça nesta terra e não se pode, por pensar diferente, se dar o luxo de isolar esse ou aquele. Ambos, devem saber que a vaidade e a insegurança acompanham a todos, inclusive artistas, intelectuais e artesãos. Todos lutam pelo que fazem e precisam do olhar e da palavra do outro, esse que, muitas vezes fica mudo, para não elogiar ou validar o sucesso alheio.
Este Ceará, tão rico e tão pobre, não comporta aposentadoria, alheamento ou desconexão das pessoas que sabem criar, agitar, liderar e fazer cultura. O exemplo do Clube do Bode, entidade etílico-recreativa-cultural, sem estatuto, muito calor e fofoca, é prova certa de que contrários podem sentar em uma mesma mesa, discutir e disso resultar ações anárquicas que são expressões e até instalações culturais pós-modernas, tudo registrado em atas, que poucos leem, mas todos assinam reverentes, destacando apenas os seus pré-nomes.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/01/2007.

