CALOTES ANTIGOS E NOVOS – Jornal O Estado

Há alguns anos, quando ainda me impressionava com nomes, sobrenomes e locais de nascimento, fui apresentado a pessoas da melhor estirpe, excelente educação e que desejavam investir em nossa terra. Convocado para uma reunião com eles, tomei o avião e fui a um clube elegante do sul para um primeiro contato. Local refinado, pessoas bem vestidas, bebidas honestas e papo excelente, entremeado de citações a grandes amigos influentes, cursos no exterior, fins de semana memoráveis e, de passagem, algumas frases em inglês e francês. Final da reunião: muitas ideias, negócios em perspectiva e nada de ninguém se lembrar de pagar a conta. Tive que pagá-la.
Certo de que havia feito bons contatos, aguardei a visita. Vieram em voo econômico, com a pose e quem estava chegando de jatinho. Hospedei-os em um bom hotel e, após lagostas e praias, sentamos para discutir negócios. Só se falava em milhões de dólares e no lucro que viria após a obtenção do financiamento, já que o grupo local entraria com o capital inicial para aquisição do terreno, projeto, viagens de técnicos e “alguns contatos importantes”. Eles, os ricos convidados, entrariam com o “know how”. Ouvi tudo, anotei, paguei a conta do hotel, levei-os ao aeroporto e nunca mais dei resposta.
Tudo isso veio à mente por me lembrar de velhas e atuais histórias de calote. Por exemplo, lembro bem da insolvência da empresa Gurgel Motores. Nessa brincadeira, o Banco do Estado do Ceará entrou com 3 milhões de dólares pelo aval concedido perante o Banco do Nordeste. O Ceará passaria ao Primeiro Mundo com uma fábrica de automóveis e, nada mais justo que avalizar a operação. Não acredito que o BNB e o BEC, por seus técnicos, tenham assegurado então que o projeto teria êxito. Só um cego não via que os automóveis da Gurgel eram mais atrasados que os antigos “Ladas” russos e sua tecnologia ficava muito atrás das antigas montadoras de “Buggies” locais que, juntando fibra de vidro e componentes Volkswagen, conseguiam ótimos resultados. O que houve então? Deslumbramento, desonestidade ou a incapacidade de distinguir os que vêm para cá para investir e trabalhar dos que vêm para se arrumar. Será que leram balanços, pediram informações e ouviram a Serasa? Eu sei o que é não olhar cadastro e saber a fundo da história pessoal e empresarial de caloteiro. Sempre cordial, falso como uma nota de 15 reais e pomposo como os néscios costumam ser.
Três milhões de dólares é dinheiro, por exemplo, suficiente para fazer uma porção de micro e pequenas empresas saírem de suas crises de capital de giro. Imaginem, por exemplo, esse dinheiro financiando lojistas e fabricantes da Av. Mons. Tabosa ou aos microindustriais do Montese. Seriam centenas de empregos, gente feliz, trabalhando dia e noite para pagar os empréstimos e não sujar o nome. Seriam famílias inteiras procurando economizar e reformar galpões feitos de forma improvisada nos quintais de suas casas. Mas essa gente, na maioria, não tem acesso livre a bancos, não frequenta reuniões elegantes, não tem cadastro e suas mãos calosas não têm classe para segurar uma caneta “Mont Blanc” e assinar, sorrindo, uma promissória de milhões de dólares que, antecipadamente, já sabem que não irão pagar.
Fica mais uma lição, para os que ainda se deslumbram com os caloteiros da terra, que vão sendo conhecidos por todos, apesar de usarem laranjas, e com visitantes-caloteiros, tidos como ilustres, recebidos com pompa e circunstância e apresentado por lobistas empresariais. O amadurecimento de um Estado passa pela isenção com que todos devem ser recebidos, analisados, independente do nome, da pose ou da propaganda enganosa que fazem. Estado pobre, recursos limitados, carências mis, nada melhor que um pouco de cautela dos que dirigem as instituições de crédito oficiais na hora de financiamentos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/01/2007.

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