AMOR INCESTUOSO – Diário do Nordeste

Sou filho de Fortaleza e a amo de forma incestuosa. Por ser filho e amante apaixonado, seria demais pedir isenção na proposta de análises sociológica, econômica, política ou urbanística. Onde já se viu filho andar falando de mãe…
Além de mãe, parteira e berço. Infância e escola. Juventude comprometida com sonhos, o cedo amadurecer e o tentar ser gente. Não vou dizer dos seus defeitos e virtudes. Herdei-os, como os outros filhos que ela mãe prolífera tem. A todos, pobres e ricos, que bebem e sentem a energia vinda de sua luz, sol, mar, ela mostra o seio farto que se espraia da Barra do Ceará ao Mucuripe onde o corpo que deita meio preguiçoso.
Não digam que esta é uma visão apologética de Fortaleza. É como a vejo e a sinto na pele e nos sentidos. E por falar em sentidos, não posso e não devo esquecer do seu rico imaginário coletivo onde despontao poeta Paula Ney com a sua “loura desposada do sol”, hospitaleira e compadrio entre as pessoas.
Embora pretensamente moderna e, com as desvantagens dessa condição, ainda assim não lhe quebraram, nos subúrbios, os hábitos das cadeiras, fofocas na vizinhança, bares com papos e cantorias, solidariedade nas doenças, missas de sétimo dia repletas de gente, apenas para cumprimento de obrigação social.
Não importa que o imaginário venha cedendo lugar a uma realidade cruel com desigualdades sociais, áreas de risco, turismo predatório e vexatório, ausência de perspectivas individuais para muitos com a quase morte do sonho. Mas, acreditemos, pois se morreu, não era sonho. Esta é, definitivamente, uma crônica repetida, afetiva, comporta erros, omissões e contradições, pois assim é a vida das pessoas que fazem e amam Fortaleza.
Os forasteiros que chegam para ficar assumem a sua juventude e liberdade, embevecem-se com a luz que dela irradia e contagia favorecendo mudanças, sedimentações e aventuras. E como num amalgamado “baião-de-dois” formam a teia da mútua boa vontade e do sincero entendimento. Fortaleza, paradoxalmente, é uma jovem mulher de apenas 281 anos, a contar do dia 13. Parabéns, um cheiro.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/04/2007.

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