A DESCOBERTA DO NÁUTICO – Jornal O Estado

Houve um tempo em que Fortaleza não sabia que tinha praias. Dava as costas para a costa. Foram os clubes, especialmente o Náutico, que desvendaram o mar e viram o futuro da cidade. As famílias tinham casinhas de “veraneio” onde hoje é a Av. Beira Mar, então uma ruela estreita de pedra tosca. A minha família tinha uma dessas. Ficava do lado do mar, na altura da Rua Tibúrcio Cavalcante. Passávamos parte das férias por lá. Foi nesse tempo, final dos anos 50, que descobri o Náutico.
Seu nome lembra quem faz ciência e arte na navegação sobre a água ou o marujo que lê as cartas marinhas e descobre o rumo certo de sua navegação. Os fundadores e gestores do Náutico nestes seus 78 anos de vida foram e são marujos avançados no tempo que construíram um clube em meio às procelas da indiferença, e o fizeram em local estratégico, com solidez, formas arquitetônicas diferenciadas, quadras de esportes, piscinas e um salão de baile que, reunidos, falam do descortino e arrojo de seus dirigentes em uma cidade que tinha, quando o descobri, apenas 370 mil habitantes, 10.000 linhas telefônicas, ainda sem a televisão, embora com mais jornais (Unitário, Correio do Ceará, O Estado, O Democrata, O Nordeste e O Povo) que hoje. Possuía 500 ônibus, pouco mais de 3.000 veículos em circulação, o Cine São Luiz estava em construção, a Universidade Federal apenas engatinhava, mas o Náutico já era referência e aprumo. Eu me orgulhava de ser sócio juvenil com o número 3.996, se não estou enganado.
A partir daí, por um tempo razoável, frequentei suas tertúlias e matinais, reuniões dançantes alegres, benfazejas e despojadas. Lembro que, já universitário, fui “requisitado”, junto com outros amigos, para “fazer sala” a um grupo de ricas moças paulistas que excursionavam de navio e ali iriam a uma tertúlia. Reza a lenda que Antenor Barros Leal Filho, colega de faculdade, teria sido perguntado: o que faz você? E ele teria dito: sou estudante de direito, tenho um fusca 58 ‘guaribado’ para 62 e um salão de barbearia no centro. Brincadeira, certamente.
Nos anos 60 fiz parte de uma roda que se reunia no restaurante do clube, então comandado prodigamente pelo libanês Kury, da qual, entre outros, eram integrantes: Danilo Marques, Lúcio Brasileiro, Lustosa da Costa e Fernando Távora. Conversávamos sobre tudo e sobre nada. Gastávamos o tempo franco da mocidade, pois a idade é uma questão de conhecimento mais do que de anos, como dizia W. Somerset Maugham. Eu era o mais novo, ainda solteiro, e aí mais uma vez o NAC, de forma indireta, passou pela minha vida. Conheci Ângela, então eleita Miss Náutico, dançamos o Carnaval da Saudade de 1969 e depois casamos, sendo o casal Ary (Zélia) Araripe, um dos padrinhos. Mas isto é outra história.
A propósito de história, desde 1966, anualmente, no dia 16 de dezembro, nós, os formados em direito pela UFC em 1966, somos intimados pelo Stênio C. Lima e almoçamos nos salões do Náutico, ouvindo música, discursos, o imenso poema de Castro Alves, “Navio Negreiro”, pelo Orlando Rebouças, e exercitando a benquerença que o tempo não consegue corroer.
Hoje, neste 2007, vejo a ação vigorosa de Guedes Neto para segurar o timão e manter, com binóculo no futuro, acesa a tocha que foi carregada por tantos e o faz com competência e dedicação, apesar do olhar indiferente do poder público que só vê os clubes como meros contribuintes, não colabora e tampouco entende que eles são também centros de convivência, formadores de esportistas e aglutinadores de uma sociedade que cresce, mas fica encurralada nas ruas pela violência. O Náutico e seus dirigentes são combatentes, não apenas em batalhas de confete e serpentina, mas na luta pela manutenção de um patrimônio cívico de Fortaleza, agora historiado em livro pelo jornalista Rodolfo Spínola.
(Rodolfo, se precisar: João Soares Neto é da Academia Fortalezense de Letras, Associação Brasileira de Bibliófilos e cronista semanal dos jornais Diário do Nordeste, O Estado e Carta Maior.).

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/05/2007.

Sem categoria