OUVIR DIZER – Jornal O Estado

Ricardo Guilherme, para os que não sabem, é, além de ator consagrado e diretor de teatro, um apaixonado por leitura. E dessa a paixão e maturidade profissional, surgiu um projeto seu, acolhido pelo Centro Cultural do BNB, em que textos, poesias e prosas de poetas e autores cearenses, são levados à cena, mensalmente, em datas previamente marcadas e divulgadas, sempre às 16.00 horas, ali no auditório da Rua Floriano Peixoto. O cenário é apenas um pano preto de fundo, cor essa que também é a vestimenta do Ricardo, realçando apenas os seus grandes óculos, a vasta cabeleira branca e a voz sonora, modulável e que vai tomando o compasso e a harmonia de suas emoções.
Não há música, tampouco apresentação prévia. Apenas um banco, uma estante e um microfone, certamente iluminados por spots direcionados, em meio à negritude do fundo. E aí Ricardo aparece e começa a falar da pessoa e da obra do escolhido. Digamos, por exemplo, que esteja falando do poeta Francisco Carvalho (que, por sinal, reservado que é, não compareceu no dia em que sua obra foi apresentada, mas sua família estava lá): conta a sua relação pessoal com o grande poeta de forma leve, mas segura e, sem que os ouvintes percebam, mostra as várias faces do autor, quer como amigo, incentivador de iniciantes, funcionário público, professor etc.
Desse jeito sutil e precioso, dá-se uma natural iniciação do público, constituído, em sua maioria, por jovens de escolas públicas, e de escolas privadas, pois o projeto é aberto, democrático, gratuito e, certamente, a direção do Centro Cultural do BNB fará um bem maior se lhe der continuidade. Igualmente, as direções de colégios e universidades fariam um benefício imenso aos estudantes se os levassem para ouvir essas leituras dramáticas que têm consistência, tom intimista e até, algumas vezes, uma pitada de humor. Além disso, Ricardo escolhe autores (por exemplo: o já citado Francisco Carvalho, Moreira Campos, Airton Monte, Patatitva, Carlos Augusto Viana, Luciano Maia etc.) e estuda, com atenção, alguns textos especiais de cada um para ler, repetir e enfatizar, como a montar, na cabeça do ouvinte, um jardim de estética.
Dura apenas uma hora, o que é lamentável, pois vai sendo criada, pouco a pouco, de forma didática, sem deixar de ser teatral, uma empatia entre o apresentador Ricardo Guilherme e o público. E o monólogo, de forma incrível, passa a ser diálogo com o sentimento e a atenção do ouvinte que, mesmo que não conheça nada de literatura, sai do auditório com muita coisa para pensar, ainda que não recorde exatamente tudo o que foi dito com maestria e simplicidade cênica. É um processo – e um projeto – de transformação de pessoas que precisaria do apoio maior do BNB para continuar e também ser mambembe, viajante, volante, aliar a clausura do auditório às quadras de escolas e comunidades, como a dizer que o mundo não é apenas violência das ruas, desatino de políticos, vazio de certos de shows, programas de televisão e de algumas emissoras de rádio que primam pelo chulo e o mau gosto. Há salvação, acredite, esse projeto, não pode ser interrompido, ele é um caminho e caminho se faz, passo a passo.
(para todos os que acreditam na esperança, na escrita e na arte)
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/06/2007

Sem categoria