DEUS VIVE? – Jornal O Estado

Deixo claro, desde logo, que esta crônica é fruto de pesquisa, vivência, leitura despretensiosa de livros e ensaios. Nada de engenho e arte.
Os que nasceram nas décadas de 40 e 50 e tiveram formação religiosa ou estudaram em colégios dirigidos por pastores, irmãos, freiras, rabinos ou padres, sabem que o Deus que nos foi apresentado, na maioria das vezes, era alguém onipotente, soberano e punia com castigo e aflições os que não seguiam os seus ensinamentos. As proibições imperavam e se pecava por pensamentos, palavras, obras e omissões.
Veio a década de 60 e o mundo tomou novo rumo. Surgiram os hippies, o rock, o Concilio Vaticano II, o assassinato dos Kennedys, a guerra do Vietnã, o feminismo e a informática. Os homens e as mulheres estavam confusos com a liberação sexual, com a proliferação do uso da maconha, do LSD e diante da perspectiva de um programa espacial que pretendia desvendar os mistérios do espaço cósmico e mostrar que A era mais forte que B.
Em 1966, a revista americana Time publicou matéria com o título “Deus está Morto”? tal era o agnosticismo que parecia imperar naquela época. As décadas de 70 e 80 foram utilizadas mais para a especulação científica, crescimento econômico e o desenvolvimento tecnológico. Imaginava-se que Deus estava à margem desse processo.
De repente, surge nos anos 90, um fervor religioso com especial destaque para todas as igrejas. A Ação Preferencial pelos Pobres e a Teologia da Libertação cedem lugar para a Renovação Carismática (na Igreja Católica), os muçulmanos se expõem e tumultuam o nosso mundo, crescem os televangelistas nos Estados Unidos (destacando-se Pat Robertson, fundador da Coalização Cristã) e a exponencial atuação da Igreja Universal do Reino de Deus que, do Brasil, lançou tentáculos para o mundo e promove a fé presencial e televisiva.
Ao mesmo tempo, na Rússia, num esforço da Prefeitura de Moscou, do Governo Soviético e da igreja Ortodoxa gastaram-se 250 milhões de dólares reconstruindo a catedral do Cristo Salvador destruída por Stalin. Os russos voltaram a ter fé. Enquanto isso, um intelectual americano, Jack Miles, escrevia um best-seller “Deus, uma autobiografia”, baseado na versão judaica da Bíblia, onde montava uma versão instigante sobre Deus. Agora, na Veja desta semana, outros escritores voltam a questionar e negar a Deus.
Geraldo Mello Mourão, filósofo dos bons e polêmico por excelência, deu o seu pitaco sobre Deus: ‘Tudo será monótono, menos esse Deus arteiro e impagável , como o entendia Rilke, que cria todos os poliedros dos dias e das noites para seus servidores e que sempre os espanta e surpreende com sua presença cruelmente exigente e docemente compassiva’.
Por outro lado, crendo-se que Deus está vivo, ele assume uma face mais branda, menos carrancuda, passando uma linguagem onde o amor predomina e a fonte dessa nova onda é a descoberta de uma identidade para o ser humano, baseada, talvez, em uma espécie de ‘fundamentalismo’ generalizado que, com muita força diz, através de ações, orações e cantos, que Deus está vivo e no meio de nós. Será?
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/06/2007.

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