OURO PURO – Diário do Nordeste

Hoje, com a longevidade acenando mais tempo, estamos condenados ou abençoados a ter um futuro da maturidade. E esse futuro da maturidade eclode depois do ímpeto começar a baixar. Reencontramos o nosso eu verdadeiro e procuramos um sentido mais profundo no tempo a nos restar, seja longo ou breve. E aí, em meio às calmarias e festivais de vento, descobrimos o prazer de ser inteiro, íntegro, mas precisamos de uma espécie de um alter ego ou companhia, alguém a nos animar, entender e amar.
E isso, por conta desse novo mundo a engolfar quase todos, a fazer da liberdade uma panacéia e a nos levar, vez por outra, a uma estrada circular, na qual o nosso carro existencial patina, atola, faz voltas e não encontra as veredas da felicidade. E isto tem nome: solidão, especialmente aquele produto da separação de corpos e mentes anos e anos juntos, mas, por força do olhar diverso na vida ou do destino, tomaram sendas distintas.
E essa conclusão rodrigueana nos atinge e pede reflexões. E aí lembro o exemplo de Ernando Uchoa e Regina completando 50 anos de casados. E daí? E daí é estar alegre em propagar esse feito, conhecendo os dois e sabedor da energia de cada um para, todos os dias, até andarem juntos ao calor do sol, rodeados de amigos. Antigamente, não se comemorava muitas Bodas de Ouro de casamento, pois raros eram os casais a atingir esse patamar tão restrito. Hoje, são igualmente escassos os verdadeiramente juntos e esse é o caso de Ernando e Regina, unidos e propagando o seu amor, mesmo sem a trombeta de filhos ou de netos. Ouro puro.
É essa identidade plasmada na troca de essência vital a soldar a benquerença, essa aliança tão rara a resplandecer em ouro puro e cintilar nos olhos de seus personagens, tão queridos agora quanto no tempo de sua mútua e definitiva descoberta. Não a das aparências, mas a da aceitação da personalidade do outro e do conúbio verdadeiro a conseguir ultrapassar as intempéries da vida sempre com a certeza de ser na imperfeição do outro a trilha da descoberta da tolerância, respeito e do apego, reunidos, a celebrar o amor.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/07/2007.

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