Quando acontecem acidentes que comovem a Nação ou atingem familiares e amigos nossos, ficamos perplexos e cobramos atitudes, reclamamos e, momentaneamente, nos indignamos.
Nós, brasileiros, temos o hábito de reclamar dos políticos em quem votamos. Isso é produto da cultura e do comportamento nacional de não escolher com atenção dirigentes, amizades e parceiros. De vez em quando ou muitas vezes, somos surpreendidos com decepções e até desonestidades. Por qual razão isso acontece? Por que não temos o cuidado de examinar quase nada, de nos aprofundarmos em reflexões e análises e nos deixamos levar pela empolgação, a conversa fiada e a falsa aparência de gente boa.
Falamos dos banqueiros, mas eles são, por dever de ofício, cuidadosos ao conceder um crédito. Nós, pelo contrário, somos abertos demais, damos crédito fácil, seja de que natureza for, a quem não conhecemos em profundidade e temos a memória curta. Isso nos leva a escolha errada em muitas situações. Essa constante na nossa vida, por outro lado, é fruto, além da desatenção e falta de análise, apanágio do subdesenvolvimento, do descompromisso com nós mesmos. Fazemos tudo às pressas, como se nada merecesse um tempo de expectativa, tão comum em outros povos, que levam muito tempo para chegar a uma decisão. Por outro lado, tomada a decisão, mergulham, com profundidade, na luta para que ela se transforme em realidade, em êxito e, certamente, monitoram comportamentos e corrigem desvios, não tendo receio de excluir pessoas que falham, denigrem, roubam e têm cara de gente boa. Nós, não. Todos sabem que fulano de tal é desonesto ou trambiqueiro, mas ele continua saindo por aí, enganando pessoas, escudado, muitas vezes, em advogados que provocam chicanas em processos que tentam desmascará-lo.
Se desejarmos um melhor destino para nós mesmos e para o Brasil será preciso que mudemos de conduta. Tornemo-nos, forçosamente, desconfiados, deixemos de aceitar os que fingem ser e não são, os que se apoderam de posições públicas, privadas, sindicais ou de associações de classe, apenas em benefício próprio, propalam isso e aquilo em relações públicas que nada mais são que mistificação e promoção pessoal furada, não conferida por quem as veicula. Temos que parar com a hipocrisia ou aceitar o que diz o ministro da Cultura, Gilberto Gil, atualmente em férias no exterior: “A hipocrisia é uma ferramenta da civilidade”. Será?
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/07/2007.

