Todos os que acompanharam a Guerra Fria – mesmo vendo o esforço da Mikhail Gorbatchov para reestruturar (perestroika) a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e dar sinais de que havia uma abertura (glasnost), em meio a toda pesada estrutura de poder – não poderiam supor que a queda do Muro de Berlim, em 1989, decretaria, por via de consequência, o fim da URSS.
Dois anos depois, desestruturado o Politburo, Gorbatchov caiu em desgraça e teve que resignar no dia de Natal. Começava aí uma nova fase em sua vida, aos 60 anos. Tentava ter visibilidade internacional, participando de grandes fóruns de debate, criando uma fundação e adotando a postura de estadista em disponibilidade, mesmo tendo recebido em 1990 o cobiçado Prêmio Nobel da Paz. Volta então ao cenário mundial com desenvoltura, sem esquecer a amargura de não ter a legitimação do povo soviético que não o festejava como ele gostaria e acreditava merecer. Em 1997, para surpresa de todo o mundo, aceita fazer um comercial para a Pizza Hut, multinacional americana de fast-food, destinando os recursos para o que chamou de “arquivos Perestroika”. Parecia ser a necessidade de continuar na mídia e impactar os que já estavam esquecendo dele.
Agora, agosto de 2007, quando completa 76 anos, aceitou fazer um outro comercial. Desta vez, a proposta foi da elegante ‘Louis Vuitton’, mega organização francesa que produz valises de alto luxo, comanda negócios de champagne, moda, perfumaria e lojas. Como da vez anterior, Gorbatchov afirma destinar os recursos desta vez para a Cruz Verde Internacional, sua fundação. No comercial, ele está sentado de terno e cachecol no banco traseiro de uma limusine, tendo ao lado uma valise Louis Vuitton e, como fundo de imagem, o Muro de Berlim, supostamente intacto. A ‘Louis Vuitton’, indagada sobre a razão da publicidade em foco, diz que ela tem “valores essenciais”. Gorbatchov costuma comemorar o seu aniversário com um jantar no restaurante “Napoleão”, em Moscou. Napoleão Bonaparte, como se sabe, foi derrotado na Rússia, pelo inverno, em 1812. Agora, é verão em Moscou.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/08/2007.

