Estávamos nos anos sessenta. Eu era estudante universitário e escrevia a coluna diária “Informes Acadêmicos” no jornal Correio do Ceará, dos Diários Associados, substituindo, definitivamente, Pedro Henrique Saraiva Leão, que fora estudar no exterior. Tempos depois, tive a ideia de escrever sobre administração e negócios. Procurei o Superintendente Eduardo Campos e falei do projeto de uma coluna diária abordando esse assunto totalmente novo e vário. Do seu jeito direto, voz tonitruante e decidida, ouviu, discutiu e aprovou a ideia. Passei a ter salário fixo e a coluna foi em frente.
Esta foi a forma de dizer que a minha admiração por Eduardo Campos vem de longe. Mesmo não privando de contato diário com ele, sempre que nos víamos havia uma boa troca de energia, por sua aura sem sombras. Certa vez, visitamos juntos a sua fábrica de liofilização de banana, lá pelo Mondubim. E jogamos conversa fora sobre como é difícil ser dono de qualquer coisa no Ceará. Ele sabia.
Os tempos passaram e eu tentei fazer algo diferente em educação, na então Av. Estados Unidos. Adivinhem quem era o vizinho da esquerda? Eduardo Campos, dirigindo a Ceará Rádio Clube, em sua nova fase. Visitei-o e participei que estava ao lado para o que o desse e viesse. É claro que sempre falávamos nos acontecimentos culturais desta cidade de tantos escritores e poetas, mas de poucos leitores dos livros que compram- e não leem – nos saraus de seus lançamentos.
Ele era sempre efusivo, guapo, olhar penetrante e jeito de quem sabe dizer o que quer. Eduardo Campos não deixou que o menino de Pacatuba morresse dentre dele e esse menino, órfão de pai aos quatro anos, sabia que seu destino era maior que o distrito de Guaiúba, onde nascera. Fortaleza o adotou e abrigou desde os seus nove anos e ele foi crescendo de mãos dadas com a cidade e se tornou homem valoroso e múltiplo. Radialista, jornalista, intelectual, administrador do então mais forte condomínio de empresas jornalísticas do Brasil e industrial.
E esse mesmo Eduardo Campos foi o civil cearense de maior prestígio e trânsito durante os governos militares, mas isso nunca invalidou as suas relações de amizade e respeito com pessoas de esquerda. No seu velório, entre outros, estavam pranteando-o, Manuel Raposo, Barros Pinho e José Júlio Cavalcante, então referências socialistas.
Tive a felicidade de estar em sua festa de oitenta anos e vi o carinho e aprumo da família em homenageá-lo ao lado de tantos colaboradores, amigos e colegas das muitas instituições das quais fazia parte. Uma noite de amor, brilho e descontração.
Incansável, foi no curso de uma palestra no Dragão do Mar que um acidente vascular cerebral o levou ao hospital e, por consequência, à morte. Hoje, exato nesta sexta feira, 21 de setembro de 2007, Eduardo Campos inauguraria o Museu do Instituto do Ceará, entidade que renovara e presidia. O menino que chegou em 1923, acaba de partir. A vida é ida e volta. E todos sabem que era um homem sempre a frente da sua quadra, fundando e cumprindo roteiros profissionais e singrando sonhos pessoais.
Ao final, pedindo que não julguem intromissão, sugiro que os membros do Instituto do Ceará deem o seu nome ao Museu que ele construiu e deixou pronto, não consentindo que as quimeras dos que semearam em objetos e livros a história, a historiografia, a antropologia e a geografia do Ceará e do Brasil, se transformem em mosaicos engastados em prateleiras fechadas, mas riquezas expostas para conhecimento de muitos que, doravante, possam e devam visitar o Museu Eduardo Campos.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/09/2007.

