Faz tempo, muito tempo que somos amigos. Ele, mais velho, quieto ou aquietado, era estudante responsável e socialista-universitário, essa categoria natural entre os que pensavam um pouco mais que a maioria. De repente, somos colegas de turma. Eu, agitado, fazendo duas faculdades ao mesmo tempo, também mexendo com política universitária e escrevendo em jornal. E não é que saímos da mera e circunstancial categoria de colega para a de amigo e parceiro de tantas lutas, trabalhos de natureza diversa e quase sempre ‘para ontem’.
E ele me convocou para ser seu padrinho de casamento e aceitei com alegria. Comprei o presente possível a um estudante e aguardei a data. Pois não é que fiz um concurso, ganhei uma bolsa de estudo irrecusável e tive que viajar dias antes das bodas. Nessa época não havia Internet, tampouco celular e a comunicação internacional era difícil, ruim e cara. Mas, no dia e hora, lembrei que meu amigo estava casando com a única mulher que creio ter amado. Marido responsável, bancário concursado, administrador capaz, lá se foi ele singrando os caminhos da vida até que dois filhos, sãos e bonitos, nasceram e o enterneceram, mais ainda, para todo o sempre. E eu, anos após, já formado e “em começo de vida” resolvi casar e ele foi o primeiro padrinho convidado. E assim foi feito.
Agora, esse meu amigo que, de forma paralela, contínua e amistosa, sempre co-participou de minhas lutas profissionais e teve participação decisiva como moderador de meus devaneios exagerados, resolve eleger prioridades pessoais e as cumpre com a discrição de monge e o prazer do menino peralta que nunca deve ter sido. E eis que ele atinge a idade, com tempo livre e saudável para convidar amigos e comemorar seu aniversário a bordo de um Catamarã, esse barco tão frágil nos mares revoltos, que os intimados ficaram cabreiros e desistiram. Tudo bem, ele disse, fiquem por aqui que me vou à Europa, rever o que já vi e caminhar passos novos em direção ao que ainda não conheço. E o fez sem vanglória, mas ao saber-se capaz de uma auto premiação por ter plantado em toda sua vida vínculos de responsabilidade, afeto e benquerença que só conhecem os amigos duradouros e leais. Vá amigo Josino e leve a Creuza, sua parceira de vida, divirta-se e traga para mim um presente de volta: a certeza de que você está por perto.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/09/2007.

