ESTRESSADOS EM AÇÃO – Jornal O Estado

Todas as manhãs a Beira Mar recebe milhares de .A maioria na expectativa e melhorar a qualidade de vida, perder quilos ou centímetros na cintura. E outros, sabe Deus o que procuram. É um longo percurso que, para uns, se inicia na calçada do Edifício Lido, na praia de Iracema, e termina ao lado do mercado dos Peixes, no final da Beira Mar. A maioria vai do Ideal ao Iate, anda ou corre em grupos, seguindo critérios os mais diversos: idade, sexo, afinidades pessoais, esportes praticados e tempos computados, times que torcem e amizades aquecidas pelo sol da fraternidade entre profissionais dos mais diferentes matizes e tempos de vida.
Os mais estressados começam a andar cedo. Alguns trazem o sol em seus pisares e o vão soltando bem devagar, até que o dia presenteia a todos com a luz e a energia necessários a mover pernas já não tão jovens e cinturas a ultrapassar os 94 centímetros, a medida que a Organização Mundial de Saúde toma como limite inferior para chamar alguém de obeso.
Sabendo de tudo isso, faz alguns anos que um grupo se formou e cada um dos integrantes assumiu o estresse que leva dentro de si por diferentes razões. Esse “Grupo dos Stressados” nasceu da necessidade da convivência humana e, pouco a pouco, admitiu realizar sonhos.
Hoje, o grupo agrega centenas. Muitos usam todos os dias camisetas padronizadas de empresas que contribuem com um salário mínimo mensal. Esses valores são utilizados em ações de congraçamento, manutenção do espaço – que acaba de ser totalmente reformado com doações, muitas anônimas – e em práticas filantrópicas junto a entidades como a Santa Casa, Abrigo de Idosos do Olavo Bilac, Casa do Sol Nascente, Curumins do Mucuripe, Iprede e Lar Torres de Melo.
Dessa forma, os seus ciosos dirigentes Cláudia, Pedro Wilson, Jocenice e Genésio vão cumprindo tarefas sociais e cuidando com esmero de um espaço público que recebe, de forma diferenciada, a atenção do grupo – com personalidade jurídica definida- e estabeleceu, de forma aberta, parcerias com a Prefeitura de Fortaleza e o Corpo de Bombeiros.
Eles vivem celebrando, criando, projetando, reformando, embelezando e mantendo essa área agradável de convivência, sombreada e ajardinada que conta com a prestação diária de serviço gratuito de aferição da pressão arterial para qualquer pessoa, independente de pertencer ou não ao grupo. Esse grupo, de tão forte, experimentou dissidência e isso acontece desde que o mundo é mundo. Essa dissensão é saudável, pois emula e diverte os que não veem razão para tanto.
O fato é que a ‘Praça dos Stressados’, a base física do grupo, está bonita, com uma grande logomarca circular em pedra portuguesa, abraçada por pequenos bancos de madeira envernizada, canteiros com plantas viçosas e a atenção total da Cláudia Gondim -e sua turma – que dela cuida, atenção de mãe primípara. Enquanto isso, nós, os outros, pisamos em folhas e galhas de castanholeiras, tropeçamos em declives e aclives, desviamos de bicicletas e ambulantes, dividindo instantes de vida, suando e escrevendo sinfonias mambembes com os nossos pés.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/10/2007.

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