O ROLEX DO HUCK – Diário do Nordeste

Muitas pessoas precisam do que se chama de validação. É quando o olho do outro sobre nós dá um “plus” na nossa autoestima ou no que achamos sobre nós mesmos. Relógios, carros, barcos, aviões, casas, roupas, joias e acessórios são sinais que definem ou mascaram uma pessoa. Assim é que soldados usam fardas, sacerdotes celebram paramentados, noivos se engalanam para as bodas etc. Assim é o mundo, desde sempre.
O rolex do apresentador de televisão Luciano Huck, roubado em assalto recente em São Paulo, é símbolo ou referência visual do “status” adquirido com o dinheiro ganho de forma legítima, mesmo que à custa de espectadores de gosto discutível. A maioria das pessoas acha essas exibições desnecessárias e que agridem os pobres e os sem perspectivas. Outras, hedonistas, precisam que seus carros, sapatos, roupas, acessórios, visuais gritem por elas, dizendo: vejam que eu não sou igual a vocês, eu posso, eu quero, eu tenho.
Em um país rico-pobre ou pobre-rico como é o Brasil, dependendo do ângulo em que o vemos, onde há uma estridente injustiça social e concentração de renda é difícil encontrar um ponto de equilíbrio que agrade os que frequentam a alta sociedade e os que, ávidos, ouvem programas policiais ou leem colunas de fofocas para saber das desgraças que acontecem com os mais famosos ou ricos.
O que quase não foi dito nessa história é que Huck não prestou queixa. E não o fez por não acreditar na Polícia, a instituição paga por pobres e ricos para nos proteger, mas que, segundo as pesquisas de opinião, não protege ninguém, nem ela própria. Um policial paulista, Roger Francini, afirmou saber onde o rolex do Huck poderia ser encontrado “e que não iria atrás por ganhar míseros R$ 568,29”. É por esta e outras que ter empresa de segurança é um grande negócio. Mas, todos sabem, vigilantes, guarda-costas e transportadores de valores são pessoas de baixa renda. Um paradoxo, pois são obrigados a arriscar suas vidas para defender indivíduos – e bens -que, quase sempre, odeiam, negam ou invejam por estarem em escala social diferenciada e os tratar, via de regra, com indiferença. Isso é problema.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/10/2007.

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