NELSON MANDELA, 90 – Jornal O Estado

Foi lendo e vendo que me tornei olheiro do mundo. Sempre lendo, escrevendo e viajando, da forma que podia, procurando entender o que os meus olhos, arregalados, viam. E nesse duplo olhar, houve uma preocupação com a África, tão rica de recursos naturais e, àquele tempo, subjugada por um colonialismo feroz que tinha a Inglaterra e a França como principais vilões.
Nesse tempo eclode a figura de Nelson Mandela, um advogado negro, pacífico no agir, mas rebelde no pensar em nome da sua África do Sul, dominada pela minoria branca. E ele estava preso. E ficou preso por 27 anos. Certa vez, foi chamado para negociar condições para a sua libertação. E essas condições incluíam aceitar o “status quo”. Ele respondeu: “só os homens livres podem negociar e eu sou um prisioneiro”. Afinal, em 1990, foi libertado e conseguiu, com a sua firmeza de caráter e liderança, dar um novo destino a um país sangrento e dividido.
A África do Sul é hoje um país transformado, pujante e até se dá à pachorra de sediar a futura Copa do Mundo de Futebol, em 2010. Mas foi preciso que muitos morressem e que Mandela saísse das masmorras para comandar, pacificamente, como Presidente, a integração entre negros e brancos, sem ódios e queixumes pelo passado. Em 1998, ao deixar a Presidência da África do Sul, Mandela fez um discurso que ficou nos anais das Nações Unidas: “Persevarei na esperança de que um quadro de líderes emergiu em meu país e em minha região, no meu continente e no mundo, que não permitirá que ninguém seja privado de liberdade como nós fomos; que ninguém se transforme num refugiado como nós fomos; que ninguém seja condenado a sentir forme como nós fomos; que ninguém seja despojado da dignidade humana como nós fomos”.
É essa a liderança de Mandela que estou a reverenciar quando ele completa 90 anos. E, por conta da falta de uma liderança como a dele que lamento este “apartheid” que ainda temos em outros países da África e em nosso país, alimentado por políticos sem ética, a indiferença dos poderosos, de entidades que só pensam corporativamente e pelo tráfico de drogas. O Brasil, os Estados e as cidades têm várias faces, desintegradas, desconhecidas umas das outras, sem que apareça ninguém para uni-las, mostrar que este país pode sim abrigar a todos com oportunidades e inclusão, sem o plantio do ódio e violência que são semeados como forma de dividir, mandar e enganar incautos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/11/2007

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