ALEMANHA, 2007 – Jornal O Estado

No dia 09 de novembro de 1989 eu estava, acidentalmente, na Alemanha. Foi o dia em que o Muro de Berlim, construído em agosto de 1961, caiu. Fazia frio, mas o calor das pessoas que atravessam aquela barricada mostrava que o mundo desobedece aos que se imaginam donos dele. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial que a Alemanha, derrotada, estava dividida, loteada entre os vencedores, Estados Unidos, França, Inglaterra e Rússia. Do lado ocidental, eclodiu a força dos Estados Unidos com a política do “Plano Marshall”, promovendo um rápido desenvolvimento e estabelecendo padrões de referência para minar a ação da Rússia.
Do lado oriental, dominado pela então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, foi crescendo a necessidade da construção desse grande muro para separar pessoas, costumes e crenças. Alemães passaram a ser compulsoriamente pró-Estados Unidos ou a favor da Rússia. Cansados, nessa noite de 09 de novembro de 1989, resolveram testar sua força e viram que a máxima de Marx valia: “o povo unido jamais será vencido”.
Era o começo de uma nova história para a Alemanha, que também não estava satisfeita com a dominação e as bases militares americanas. E o país estabeleceu então políticas públicas de reencontro de famílias separadas, a custos financeiros pesados, e passou a cuidar de reconstruir cidades que ainda estavam, em parte, soterradas pelos escombros dos bombardeios sofridos em 1945. Era uma ebulição. Agora, quando faz 18 anos que isso aconteceu, pude ver, novamente, como aquele país mudou, consolidou sua força e é hoje uma potência econômica que, depois de pagar todas as suas dívidas de guerra, merece a atenção de quantos queiram ver como a autoestima pode ser importante na transformação social de um povo. Por outro lado, com a criação da comunidade europeia, o fim de sua moeda nacional, o Marco, o surgimento do Euro e a vitoriosa implantação desse bloco supranacional, nasceram alguns obstáculos como, por exemplo, a escassez de mão-de-obra qualificada, agravada pelo baixo índice de natalidade.
Esse fato tem gerado controvérsias, pois pressupõe a concepção de um “blue card”, cartão com a cor azul da União Europeia, semelhante ao “green card” americano, que possibilite o ingresso de estrangeiros para trabalhar em funções tecnológicas qualificadas. Essa questão, ainda não aceita pela Alemanha, pode originar novamente o surgimento de um muro virtual e perigoso, o do preconceito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/11/2007

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