Nós somos seres complexos. Somos o que somos, o que temos e o que parecemos ser. O olhar do outro julga rápido, sem piedade. Mas quem somos nós? O ser que responde por nossos registros espaciais, raça, origem, categoria social e forma a base da educação, seja a familiar ou a forjada na vida por professores, trabalhos e colegas? Ou será o que temos? Sejam bens materiais ou as bagagens profissional, cultural, intelectual ou científica desenvolvidas, a partir dos nossos valores básicos? O ter é o que você não tinha e acredita possuir, como se seu fosse.
O problema é que, entre o ser e o ter, existe o parecer. Pessoas querem parecer o que não são e viver até com o que não têm. É o mundo da aparência, em que camisa ou vestido, por exemplo, são aceitos não por sua qualidade ou beleza, mas por ostentar marca de significação para a imagem de quem a usa. Um relógio deveria servir apenas para marcar horas, mas pode definir a posição social de quem ostenta um famoso. Falo em objetos para não trafegar na senda perigosa da essência, pois aí o terreno é instável. E há os que usam cópias ou coisas falsas imaginando que possam parecer verdadeiras para os outros. Ora, o que isso vale, se quem usa sabe que é imitação?
A sociedade cobra os três. O ser, o ter e o parecer. O parecer é o reflexo, a imagem que os outros têm de nós, a partir de juízo de valor falso ou verdadeiro. É ainda aquilo que se acredita poder ser fabricado com “marketing pessoal”. O sair de casa, para ver ou ser visto. Alguns acreditam ser o que os outros pensam ou dizem deles. Esses, certamente, ficam à cata do que se chama de validação ou acreditar no que o outro diz. Não pesa, para o validado, a referência própria, o que a sua essência profunda diz, mas o soprado ou gritado em seu ouvido ou o escrito a seu respeito.
Esse questionamento entre o ser, o ter e o parecer passa pela maior ou menor capacidade de cada um se auto avaliar, a partir da própria consciência ou razão. Como dizem que Sócrates dizia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/11/2007.

