O FRIO COM KAFKA – Jornal O Estado

Seis horas da tarde. Faz muito frio, quase zero grau e chove forte. Todas as luzes estão acesas em Praga e, mesmo assim, vejo cinza. É fim de outono com pinta de inverno brabo. Ando apressado e o sinal de trânsito fecha. Olho para as pessoas que vão, certamente, para as suas casas ou diversões e me sinto estranho na cidade em que estou por curiosidade e de passagem.
Deixo – que jeito – que a água ensope o meu casaco. Os óculos embaçados precisam ser limpos e o faço com o lenço. Os carros passam velozes e produzem barulho quando cruzam os trilhos dos bondes urbanos. Acabara, enfim, de ver a escultura com Franz Kafka, em uma pracinha pequena, triangular, ajardinada e meio escondida. Queria vê-la, andava e perguntava. Ensinaram-me e fui chapinhando na água que caia sem dó do céu nublado. Era um processo em andamento. E vi que o mais que uma cidade pode fazer por alguém é dar-lhe um nome a uma rua, erguer uma estátua e colocar informações nos guias turísticos. O que fica mesmo é a obra que deixa, o resto é vaidade, especialmente da família. E lembrei de toda a amargura e isolamento que Kafka sofreu e deixou passar em seus múltiplos livros. E ele estava lá sozinho e havia um grande vazio ovalado na escultura, como a registrar o que sentira. Só ele e eu na praça, ambos molhados. Ele não mais sentia o frio. Eu, sim. Uma metamorfose.
E volto a estar no sinal de trânsito que já vai abrindo e apresso o passo. No meio da multidão – que vem em sentido contrário – vejo uma jovem mãe com o seu rosto colado a uma filhinha que tirita de frio. E não só o rosto está colado, mas a mão a afaga pelas costas. Tudo não passou de segundos e essa imagem foi a mais forte que ficou na minha retina e pairou no meu sentir, mesmo que tenha encontrado Kafka, visto pontes, castelos, igrejas, restaurantes, assistido a concerto com peças de Smetana e Dvorak. Nada há mais forte que o aconchego espontâneo, o estar junto verdadeiro, a proteção que o carinho consegue transmitir e espanta o frio do corpo e da alma. E vi, repito, naquele instante que nada existe maior que o sentimento que nos une aos que amamos, sem perguntar se vão retribuir ou não o nosso bem querer. Kafka era só, não sentiu isso e sofreu por isso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/11/2007.

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