O OUTRO LADO DE MIM

Algumas pessoas falam que não gostam de ler best-sellers. Nada a ver. Conheço intelectuais de verdade que gostam de ler esse tipo de romance. É melhor ler um best-seller que nada. Eles são fantasiosos e têm um condão de nos tirar da realidade, de mostrar um mundo diferente e, quase sempre, seus protagonistas conseguem superar dificuldades e vencem. E ninguém pode falar desse tipo de literatura sem mencionar Sidney Sheldon. Ele já vendeu mais de 300 milhões de livros. Seus livros são lidos da primeira à última página, com avidez e à espera do desfecho quase óbvio. É como se todas as populações brasileira, mexicana e portuguesa, juntas, tivessem lido um livro seu. Eu li vários. Quem não se lembra de “O Reverso da Medalha”, “A Ira dos Anjos”, “Juízo Final”, “A Herdeira” e tantos outros?
Sheldon tem hoje 88 anos, mantém-se lúcido e acaba de escrever sua autobiografia ou memórias. Em “O outro lado de mim” fala de sua vida, vitórias e fracassos. No dizer do jornalista Federico Mengozzi, falando sobre o dito Sheldon, só os bem-sucedidos podem falar de seus fracassos. E Sidney romanceia sua vida, como não poderia ser diferente. Judeu, discriminado e vivendo a juventude em plena Depressão americana, quis se suicidar, de desespero, aos 17 anos. Seu pai, que nunca tinha lido nada, sabia do gosto do filho pela leitura de romances. O flagrou misturando bebida com remédios, e falou para ele: “A vida é como um romance, não é? Está cheia de suspense. Você não faz ideia do que vai acontecer até virar a página”.
Usando essa metáfora, fez com que o filho mudasse de ideia e até de nome. Sidney trocou o sobrenome judeu Schechtel por Sheldon e foi encarar sua múltipla vida. Só aos 52 anos começou a escrever romances. Antes, escrevia peças de teatro e roteiros para cinema. Até um Oscar ganhara como roteirista. Rico, famoso e ciente de sua finitude, resolve agora abrir seu passado e o faz do jeito que sempre soube conquistar leitores ao redor do mundo, parecendo íntimo e semelhante ao homem cotidiano, mas, ao mesmo tempo, misturando fracassos, sonhos, esperanças e bom humor.
Ler memórias, mesmo romanceadas, é uma forma de cada um ir mexendo com os próprios botões, examinando seus significados, erros, medos, necessidades, desejos e atitudes. Como a vida é complexa e diferente para cada pessoa, é sempre bom lembrar o que disse o pensador inglês John Churton Collins: “A metade dos nossos erros na vida vem do fato de que nos deixamos levar pelos sentimentos, quando deveríamos raciocinar, ou de que raciocinamos quando deveríamos nos deixar levar pelos sentimentos”.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/01/2006.

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