A ESTRELA PERDIDA

Escrevi, aqui neste mesmo espaço deste DN, que futebol não tem lógica. Futebol é arte, muito mais que qualquer coisa. E arte não se faz com coerência. Ao contrário, arte é desobediência ao previsto, é encontro da inspiração e desafio da não mesmice. Disse também: mas temo pelo burocratismo do Parreira, um cruzamento de monitor de autoajuda com bedel de internato antigo. Parreira é o rei da coerência e deu no que deu. Zidane e sua turma foram a arte aplicada, mais que jogadores de futebol. Eles pareciam brasileiros e os brasileiros não pareciam com ninguém. Não foi só perder, mas perder sem muita luta, em meio a um desânimo tropical que entorpecia a coragem esperada, a categoria alardeada e a genialidade cantada pelo “competente” Galvão Bueno e pela “repórter esportiva” Fátima Bernardes.
Perdemos a sexta estrela, não um hexa, pois para ser hexa deveria ter sido uma sequência de seis copas. Mas a mídia e a publicidade desenfreada iludiram a maioria dos brasileiros, especialmente aqueles que não acompanham futebol e são apenas “copeiros”, se fantasiam e ficam gritando à frente das televisões. Era uma explosão de músicas, de entrevistas com pais dos jogadores, com namoradas e até amigos. Era uma alegria antecipada, uma espécie de catarse coletiva, evasão da realidade que nos impelia para um vazio existencial, por conta da descrença no dia-a-dia.
Assim, vamos ter que voltar para a tal da coerência do Parreira, ele que se dizia gestor de talentos. E eu dizia por escrito: talento não se administra. A estrela pode ter sido perdida antes, como uma ou outra que nos cobriu de desesperança, pois imaginávamos que fosse à prova dos vendavais que engodam, mistificam comportamentos, desviam valores, atordoam inteligências e machucam o amor próprio.
Agora, vamos ter uma outra copa, a eleição de outubro, com muita gente dizendo que é também o melhor do mundo. Acreditem não, vá atrás da vida de cada um. Não do que disseram, mas do que fizeram. Procurem saber onde moravam e onde moram, quem são seus aliados e relembre da eleição passada, vale a pena conhecer a quem estavam ligados e diziam loas. Confiram as promessas, vejam as amizades e o desempenho.
A arte de ser brasileiro, glória e agonia, precisa ser levada a uma expressão mais profunda, sem patacoadas, sem bobices que podem qualificar os adjetivos que alguns preconceituosos do primeiro mundo nos impingem, por conta dessa exoticidade que permite que, justo eles, digam que não somos um país sério.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/07/2006.

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