Esta semana encontrei um contemporâneo de bancos acadêmicos. A vida nos fez tomar rumos diferentes. Ele, atendendo ao chamamento da escola em que nos formamos, aceitou o desafio de ir se aprimorar em São Paulo, fez doutorado, tornou-se professor e consultor e por lá se quedou. De minha parte, também convidado, fui mordido pelo desafio de cuidar, eu mesmo, do próprio destino. Isso, entretanto, não impediu de termos contato. Aqui e em São Paulo. Já são dezenas de ano entre o sonho de ser gente e a realidade do viver.
Falava que havíamos nos encontrado esta semana e o fizemos tomando um prosaico guaraná que imaginamos aditivar as nossas manhãs embaladas por corpos suados à cata de uma juventude que se faz distante. Pois bem, o meu camarada é hoje professor da maior universidade pública brasileira e o faz com maestria, comandando um programa de elevado significado social que se ramificou para as nossas plagas, onde, por conta disso, vem dar com os costados todos os meses.
E o mais paradoxal nessa nossa conversa de agora, entre centenas de outras que já tivemos, é que ele se nega a usar o computador como instrumento de trabalho e o faz com a veemência que o seu público conhece. A sua argumentação é simples: o computador não tem nada a ver com ele. Nunca aprendeu a mexer com o “bicho” e não vai perder tempo com isso agora. Não se incomoda em dizer que essa invenção tecnológica veio a destempo para ele. Já estava com os seus hábitos arraigados, sua caderneta de anotações, canetas coloridas para sublinhar os muitos livros que lê e uma velha máquina de escrever na qual batuca os seus escritos.
E em razão disso, da sua negativa aparentemente inabalável, é que torno público a nossa conversa e o desafio a mexer no “bicho” e não se apaixonar, principalmente ele, que coloca emoção em tudo que faz. Ser usuário de computador é uma das coisas mais simples que existe, o difícil, para os que viveram, até agora, analogicamente, é quebrar o gelo e ir em frente, sem medo de perguntar, de errar e ir, pouco a pouco, descobrindo o mundo inusitado que se abre com essa mera ferramenta, nada mais que isso.
Desse modo e, de forma expressa, o convido a passear pelos caminhos desenvolvidos por Bill Gates, a quem ele tanto admira pela filantropia universalizada, mas que não teria sido possível, se usuários de todo o mundo não utilizassem, por exemplo, as linguagens e sistemas disponibilizados e tão repetidamente propagados e vendidos por uma estrutura de negócios que não teria existido se houve tanta resistência como a dele.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/08/2006.

