DESENCANTO E ENCANTO NO RIO – Diário do Nordeste

RIO DE JANEIRO – Desço no Aeroporto do Galeão, aliás Tom Jobim, teoricamente é inverno, estamos em setembro, mas a temperatura é de 35%.
Aparece logo um agenciador dessas cooperativas de táxi e, após alguns minutos, chega um Vectra novo, ar condicionado, cumprimento o motorista e tomamos o rumo da cidade.
Este Rio é um velho conhecido meu, desde o tempo de estudante em que ficava por aqui mesmo na Ilha do Governador, depois me mandava para Copacabana, onde até hoje permaneço, na minha temporalidade. Dizia que ia de táxi e, de repente, um brutal engarrafamento. Penso no pior, um assalto ou arrastão. Não era. Era um acidente com um carro que, desgovernado, bateu no guard-rail da ponte nova, onde estamos parados. Vejo o motorista ligar seu rádio e informar a seus colegas de cooperativa que evitassem a ponta nova, seguissem pela velha. Parados, sem ter o que fazer, pergunto a ele em quem vai votar.
Ele, meia-idade, linguagem clara, coerente e articulada, me diz que anulará seu voto e explica as razões. Formou-se em Matemática, fez pós-graduação em informática e foi ser analista de sistemas. Juntou dinheiro, comprou um pequeno posto de gasolina ao tempo em que liberaram as “bandeiras”, isto é, todos podiam comprar o combustível onde quisessem. Apareceram os vendedores de combustíveis adulterados, não comprou. Depois, vieram os fiscais e o quiseram achacar. Triste, vendeu o posto, com prejuízo, e comprou um táxi, onde trabalha 16 horas por dia, paga os estudos em uma faculdade particular de biologia para a única filha, que não conseguiu vaga em universidade pública. Desfila, a partir daí, o desencanto com os políticos do Rio e do Brasil.
Termina o engarrafamento, passamos pelo Fundão e tomamos a Linha Vermelha. Mostra os outdoors perto da favela da Maré e diz que o que os políticos gastam nas eleições, só recuperarão se for roubando. Entramos no túnel e já estamos na Lagoa Rodrigo de Freitas, onde tristes militantes acenam cartazes de candidatos de vários partidos. Ele ri e diz não acreditar em pesquisas, é um cético e com sua formação cartesiana “prova” que a eleição não está decidida para ninguém, pois o número de indecisos, dos que vão votar em branco e nulo, é muito grande.
Aparece o mar, é, enfim, a orla do Rio, do jeito que Deus a fez, bela, exuberante, cheia de gente miscigenada em pleno dia de trabalho, biquínis e calções fazem pares, enquanto vendedores apregoam todos os tipos de quinquilharias. Sol a pino, é inverno, creiam. Chego a meu destino. Ele desce, apanha minha mala, pago e se despede. É Carlos, um brasileiro.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/09/2006.

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